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Pra não dizer…

04 de julho de 2010

Diz muito bem uma conhecida minha: A língua é o chicote da bunda! Acabou que acompanhei o último jogo da Seleção na copa. Fiquei minimamente sentida com a derrota; mais com a falta de emoção nos comentários gerais.

Tava fazendo minha mala uns dias atrás. Começando a arrumá-la, só. Peguei nas mãos um livrinho verde-e-amarelo com crônicas do sr. Nelson Rodrigues, que acabou por me acompanhar naquela noite fria e triste. Com isso, dei pra gostar de futebol.

Acho que a dificuldade encontrada por mim e por tantos em compartilhar da catarse nacional, de ver e sentir aquela esfera ser tocada por tantos pés até enfim alcançar a rede do gol, está numa coisa que o Seu Nelson sempre reclama: Bilac morreu e não temos um Homero ou um Dante pra poetizar o que é prosaico em essência.

Abandonei a indiferença ao esporte. E isso não quer dizer que conheça e adore. Mas passei a compreender melhor a dita paixão nacional. O futebol é parte indissociável da vida e o mundo está contido numa partida de futebol ou, no mínimo, Nelson Rodrigues é muito bom pra convencer alguém disso.

Recomendo A Pátria em Chuteiras a qualquer um, ainda e principalmente àqueles que não gostam de futebol, que não entendem e que nem sentem falta. Leitura extraordinária e, ao contrário do que possa parecer pelo título e pela temática, universal.


Indisposição

01 de julho de 2010

Ou: Duas formas de contar a mesma história.

Reunião de Speedies e dois-ponto-cinco-cincos numa Pâtisserie dos Jardins. Tagarelices pra cá e pra lá… E a fulana? Ah, um escarcéu! Boatos, telefonemas, porque sei-lá-quem disse que…

Passados uns dias, outro eventos. Chega a tal com sua Birkin acenando. Inicia o coro geral: Que aconteceu, querida? Que houve? Está bem? Ah, sim, sim! Foi apenas um mal estar

Uma dessas moças, uma das de Speedy monogramada pendendo no antebraço esquerdo, é acordada numa madrugada dum dia de semana pelo telefone. Estende o braço para a mesa de cabeceira, pega o telefone na base, Alô?

“Dona …, a senhora não sabe o que me aconteceu! Eu acordei às quatro e meia, saí de casa, tava quase chegando no Terminal … Tive que voltar. Me deu um piriri! Fui pro posto aqui pertinho de casa, esperei na fila, fiquei em observação depois… me deram soro. Não pude ir trabalhar! E, dona …”

Segue o relato escatológico da empregada pra patroa, em todas as minúcias, pra ver se não perdia o dia de trabalho. E fala, e fala, e a mulher embrulha o estômago. Ao final da narrativa responde um “tá bem”, desliga logo o telefone, um pouco de nojo do aparelho… Mal sabe essa D. que sua amiga foi acometida do mesmo mal na semana passada.


Velhinhas e gatos

01 de julho de 2010

Velhos, crianças… desconhecidos em geral, gosto muito à distância. Esses polos etários são recorrentes nas minhas descrições de momento, não sei se por gosto pessoal ou simplesmente os “adultos” que são muito chatos, mesmo irrelevantes, pra que se gaste tempo relatando minuciosamente a forma como compram o jornal do dia e um maço de cigarros.

Três casos de hoje:

Um: Na porta do caixa-eletrônico, esperando minha vez pra usar o Banco 24h. Sai a senhora, para de frente pra mim: Cobram taxa pra usar o 24-horas? Não sei… Nunca vi disso. Ora, que absurdo! Poisé, poisé! acabei de ver a informação na tela. Vou esperar vagar o caixa do … Ah, não era meu banco. Bom, bom. Honestamente, não sei o que me perturbou mais naquela conversa: A possibilidade de pagar as tais taxas ou a dentada da senhora maquiada por baton cobre.

Dois: Lá vou eu, pálida, me arrastando vagarosamente num vestidinho marrom até a farmácia. Resfriado maldito. Irritação inicial ao perceber que analgésicos e vitaminas C foram mudadas de lugar. Fui até o balcão, pedi pra mocinha. Muitas opções. (É difícil esse mundo capitalista!) Qual o mais barato? … O mais barato dos conhecidos? Certo… Paracetamol. A mesma coisa… Vou para o caixa, duas senhoras se achegam no balcão. Uma reclama com a outra qualquer coisa em volume inaudível. Responde: “o do posto é coisa de Po-bre!”. Vêm para caixa logo eu passo pela porta automática.

Três: Volto pra casa, me restabeleço minimamente, saio a passear com a Marrie. Faz tempo que não desço com a Marrie e dumas semanas pra cá um gato do prédio vizinho começou a ocupar nosso corredor. E o gato tava lá, né? No corredor que, tacitamente, é da Marrie. Eis que a gata, na coleira cor-de-rosa, começa a bufar pro outro felino. E sai correndo! E eu, carregada por ela. O outro se esconde deba,ixo do carro, pr’além do portão! Entra um vizinhozinho. A gata, ensandecida, se atraca na perna dele. Ah, Éris! Me desculpa, mesmo, mesmo, mesmo… ela NUNCA faz isso! Tudo bem… Gata solta da coleira, pra baixo do carro, pondo o adversário pra correr… “Tá namorando a gatinha” diz a senhora. Não, não tá. Nada contra, mas minha gata não é lésbica e o que tá acontecendo aqui é briga feia, por território! Nada de namoricos, minha senhora. “Ah, tá namorando!”… Ah, tá bom. Sorrio pra donna, cato a Marrie e, com muito custo, vamos escada acima.


Dia de Marte

27 de junho de 2010

“DIA DE MARTE, eu no Masp, cercada por Chagall.

Uma das coisas que mais me agradam nos espaços que reúnem arte são as senhoras de ar aristocrático que os frequentam. Há aqui uma num vestido verde, mules nude – bem próprio; lembrei-me de … comentando a cor – e o casaco nos ombros, marca das senhoras elegantes. Seus óculos estão na cabeça, eventualmente são – o telefone toca [infortunamente] – eventualmente eram baixados aos olhos pelas mãos delicadas.

Ela saiu do meu campo de visão e lembro agora do que pretendia falar. O Jesus-boiando de Chagall é um belo quadro.

Estou de frente para as pinturas de temática religiosa. Um homem acaba de fitar justo o que me chamou a atenção.

‘A Sarça Ardente’. Poderia escrever um filme, A Salsa Ardente: Um dançarino cubano, de nome Moisés, ilegal nos EUA, ganhando a vida num clube de salsa no subúrbio nova-iorquino.

(Já volto ao filme, um comentário urgente: jamais poria um rebento meu numa escolinha chamada ‘carinha suja’. Mas admiro que os pequenos – de carinhas limpas – são adoráveis. Tão calmos quanto pode uma criança nos seus [4 ou 5, difícil de ver o que escrevi, está rasurado] anos ser dentro de um museu, ao som de ópera. A auxiliar da professora é a típica moça bonitinha em jeans apertados…)

Voltando ao filme: (dois americanos em roupas idênticas; pai e filho? [apenas um comentário aleatório, mas daria uma boa cena...]) Moisés Moisés, na pista de dança, entusiasmado recebe visões de uma Cuba Libre: sua missão na vida é voltar a seu país e implantar um Comunismo.

Estudantes de artes (?) esboçam croquis; um dos mais malvestidos com a camisa do avesso. Teve sorte hoje? Gostaria de saber…

La Chasse aux Oiseaux me fez cantarolar a Habanera de Carmen.

(…)”

(Museu de Arte de São Paulo, tarde de 23 de março de 2010.)

PS: Entre colchetes tão comentários meus ou apenas transcrições destacadas porque, vamo combiná, né? “Infortunamente”? “Pobremente” (de espírito, faz muito sentido pr’alguém que entra num museu com o celular ligado) ou só um americanismo pobre mesmo?


Isabela

27 de junho de 2010

Isso foi em 2007 – 2008, talvez… Uns capítulos um pouco desconexos de uma historinha besta estavam esquecidos na gaveta da minha escrivaninha. Nessa época eu tinha uma escrivaninha com gavetas – duas gavetas! – que abriam com muito custo e muito jeitinho.

Não lembro onde estava, sei que voltava correndo pra casa. Sempre me atrapalhava com as chaves pra abrir a porta de vidro da entrada do prédio. A porta sempre dava problemas… Um ou outro, entrar em casa era sempre complicado.

Prostrada no alto dos degraus de granitos, ao lado do interfone: baixa, traços de quem foi fofinha, cabelo preto e liso, franja, olhos azuis, roupas sóbrias, vinte-e-tantos… Coincidência?

Precisei continuar a escrever sobre aquela moça, não tinha jeito.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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