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Ora, Homem!

15 de julho de 2010

Meu enteado, menino custoso! Cada dia me aparece com umas que nem sei de onde… Deu esses dias pra achar que era gente.

Estávamos a mãe e eu sentados na cozinha, esperando o que agora não me lembro terminar de assar – sei que o cheiro certamente era bom. Aí chega o guri, faz qualquer coisa de charme pra mulher, chama a atenção. Raio de moleque mimado. Isso eu sempre critiquei, ainda que pra mim mesmo. Não, não me atrevo travar briga dessa com a mulher…

Tá… como quem não quer nada, se achega da mãe, faz um agradinho, aguenta as mãos frias que acabaram de lavar a louça engastaiarem no cabelo que nunca vê um pente… “Precisa cuidar desse cabelo, meu filho. Passar condicionador, pentear de vez em quando…”

- É, é… – balançando os ombros – mas, mãe… eu sou homem.

Ora, homem! Nem pra rapaz pequeno!

A mulher me olha preocupada, pergunta se está tudo bem e eu desfaço minha cara de desaprovação – pra ela, de certo, o período não era nada demais. Pego os talheres na gaveta, ela a comida no forno e vamos todos ser uma família feliz na mesa da sala de jantar.


Que dia é hoje?

08 de março de 2010

Juro pra vocês, trocar minha primeira lâmpada sozinha foi bastante emocionante. Deu uma sensação de auto-suficiência, uma coisa tão boa… De repente era Louise Michel comandando minha própria revolução, dentro de meu quarto instaurava-se uma Comuna. Aí eu desci cuidadosamente da cadeira do computador e voltei à realidade.

Uma coisa que não suporto em datas como Dia Internacional da Mulher, Dia da Consciência Negra, Dia das Mães, dia do diabo a quatro… são as milhões de mensagens toscas que invadem as caixas de email, com que nos bombardeiam nas sinaleiras e quadros de aviso do condomínio. Fico com as flores; os pensamentos ilustrados em power point e os poemas amadores, dispenso. Todos. Não leio um sequer. É ver .gif ou letrinhas coloridas que fujo num instante.

Tenho verdadeiro PAVOR de cliché! Ok, mentira. Tenho não. Eu gosto do cliché, gosto mesmo. Mas não assim na forma bruta e vulgar. Ele precisa ser trabalhado, limado – trabalho deveras parnasiano, no entanto, o resultado aconselhado é qualquer coisa menos isso!

Voltando ao que eu queria dizer quando comecei esse texto, foda-se que a mulher tem mais inteligência emocional ou sei-lá-que-raios! Foda-se o lirismo descomedido dos cartões comerciais. Foda-se também a repulsa à data. É só mais um dia, nem feriado é! Se quer um homem homenagear suas mulheres (não no sentido poligâmico, refiro-me a mãe, vós, amigas, tias, sobrinhas, namorada…), comprar rosas, dizer parabéns, ora! Deixe o menino. É uma gentileza, não um atestado de virilidade. Aqueles que precisam tão desesperadamente demonstrar sua pretensa superioridade sexual não gastam seu dinheiro com outra coisa que não academias, sons automotivos e todo a sorte de parafernalhas para exibir-se. Seu narcisismo não permitiria.

Nesse contexto, após livrar a alma daqueles que não fazem por mal perpetuar a existência desse dia tão inútil, retomo o nome citado no primeiro parágrafo: Admiro profundamente a mulher que foi Clémence, ela é um dos meus “exemplos a ser seguido”. No entanto, nossas lutas não são as mesmas.

Não vejo hoje cabimento no feminismo. A briguinha maniqueísta entre os sexismos não passa disso: uma disputa por adeptos, em detrimento da luta por direitos civis necessários e urgentes.

Este e qualquer outro Dia X, assim como os 364 restantes no calendário não-bissextos, ao invés de servir de palco para discursos antigos ou listas quilométricas enumerando vantagens femininas (“prioridade em botes salva-vidas; orgasmos múltiplos; a mulher do presidente é primeira dama, enquanto o marido da presidente é inominado…” tenha dó!), deveria sediar debates sobre a circuncisão bárbara de meninas (praticada e perpetuada pelas próprias mulheres!) em certas culturas, majoritariamente na África e Ásia; sobre a legalização do aborto no Brasil… E não porque são mulheres; porque são o “sexo frágil”, devem ser protegidas. Porque são seres humanos!

O mesmo deve ser feito em relação à união civil de pessoas do mesmo sexo, à adoção de crianças por esses casais; rediscutir o sistema de cotas, reavaliar e investir na educação básica (onde, como, quanto? Já!), ampliar o acesso à universidade…

Nada me impede de ganhar flores qualquer outro dia. Por que impediria de pensar em políticas públicas também? Hã?

Pra terminar de forma mais agradável, deixo uma lembrancinha aos homens; uma tradução livre em prosa da primeira estrofe de Cows in Art Class, poema de Charles Bukowski, dos meus favoritos:

Bom tempo é como uma boa mulher: nem sempre acontece. E quando acontece, nem sempre dura. Homens são mais estáveis: se ele for mal, há uma boa chance de que o continue sendo; se for bom, talvez permaneça assim. Mas as mulheres são mudadas pela idade, pelas dietas, diálogo, sexo, crianças, pela Lua, pela ausência ou presença do Sol ou bons momentos. Uma mulher deve ser curada, para sua sobrevivência, com amor, ao passo que um homem torna-se mais forte quando odiado.


As Geisys diárias

08 de janeiro de 2010

Saí há poucos dias com uma amiga para conversar e bater perna. Fazia um calor moderado, com um vento frio ocasional (graças a Éris; não nasci para os trópicos!), de forma que estava bastante confortável de shorts jeans e uma camiseta soltinha de mangas compridas. Minha amiga optou igualmente por shorts e uma camiseta no melhor estilo boyfriend*, amarrada na cintura com uma pashimina verde-água linda-de-morrer. (Ok, parei. Detalhes de nossas vestimentas não vêm ao caso, só precisava ambientar o que contarei a seguir).

Certo. Então lá estávamos nós, lindas e morena/ruiva, caminhando despreocupadamente. Despreocupadas, devo dizer, com direção ou hora de voltar pra casa. As diversas buzinadas, os assovios ou os comentários escrotos periódicos, vindos de sabe-se-lá-quens tornaram a tarde, em parte, bastante desagradável.

Uma hora qualquer, quando mais um carinha num carrinho passou buzinando e proferindo suas inconveniências (e digo carrinho porque, ao que consta nos meus registros, os caras em carros importados contentam-se em dar a passagem na rua – completarei melhor esse pensamento logo em seguida), minha amiga exteriorizou seu constrangimento. Eu acompanhei seu descontentamento, no entanto precisei protestar à sua frase seguinte: Que fosse que estivéssemos de shorts! Não apenas a constituição nos permitia, como faria a mais conservadora das fashionistas.

Preciso agora retomar brevemente um trecho de prosa que trocamos mal ela chegara ao meu encontro naquele mesmo dia. Ela me havia trazido a edição #82 da Gazeta Vargas (publicação da FGV paulistana), cuja capa chamava uma matéria sobre o “Caso Geisy” (a Gazeta é meio antiga). “Sabe, do ponto de vista da moda, ela não estava errada”, minha amiga analisou. Por “moda” ela se referia a um lugar-comum muitíssimo importante e aconselhável a toda moça que conheça: Quer mostrar X? Cubra Y, Z, W… A forma reduzida da equação: Menos é mais.

A defesa que minha amiga fez da ex-aluna da Unibandidos caberia para nós perfeitamente. Ela concordou, logo nossa expressão de desprezo se desfez e voltamos a falar amenidades.

Outra anedota, antes que eu comece a concluir: Ontem mesmo andava pelo bairro da Liberdade (nada-nada recomendável para uma donna desacompanhada, no entanto era estritamente necessário) e um homem totalmente ugh!! fez menção de pegar meu braço, falando coisas impróprias. Automaticamente acionei minha cara de nojinho, desviei o corpo e passei sem encostar na criatura (para meu grande alívio!!!!!) e pensei o que aquele infeliz fazia à toa na rua em horário comercial. Se for de interesse estatístico, vestia bermudas jeans na altura dos joelhos e regata preta sem decote. O calor era imensamente maior que no dia em que saí com minha amiga, no entanto não me atrevo a ir ao centro da cidade em trajes com que passeio nos jardins.

Ao longo do que contei até então, imagino que tenham reparado em trechos bastante/um pouco “pequena-burguesa mode on”. Tentei ao máximo inferir a essas pequenas narrativas aquilo do meu id que desponta nesses momentos e que já irei especificar.

Tem uma coisa que meu pai não cansava de repetir logo que do incidente da Geysi: não fosse ela uma pobre, nada teria acontecido.

Sutilezas separam as meninas “bem-criadas” (na falta de termo adequado, um bem mega tosco) das demais; nada ensinado diretamente, mas o tipo de hábito que se adquire com a convivência. Uma alternância controlada entre impassividade, desdém e simpatia. Veja, uma moça anda na rua e, a não ser que escoltadada por um homem, ela não sorri. Sua expressão deve ser neutra. Ela vê um cachorro passeando com o(a) dono(a), um vizinho ou algo assim; sorri de forma gentil e logo volta a seu estado de indiferença ao mundo. Um homem qualquer mexe com ela, seus lábios se curvam em desagrado, eventualmente resmunga para si algo ofensivo que saia “espontaneamente” de sua boca e mal ele passa, volta à sua impassividade inicial.

Agora imagine vem um outro homem (e isso já aconteceu comigo) e se aproxima dela com um “você vem sempre aqui?”, seguido de small talk completamente irrelevante. As intenções deste homem são as mesmas (senão mais audazes!) que as daquele primeiro. A diferença é a abordagem. Nenhum realizará seu desejo, porém esse último ganhará alguns minutos de atenção, respostas gentis e um sorriso simpático no final.

Contra o argumento de distinção social no tratamento de desconhecidos, que poderia resultar da constatação anterior dos “carros”, o último(?) exemplo pessoal: voltava do supermercado para casa e na calçada havia trabalhadores de uma floricultura ou coisa do gênero. Um deles fez com que os outros parassem a movimentação entre loja e caminhão para me dar passagem e desejou um bom dia. Recebeu “bom dia” em resposta, o tal sorriso simpático e um “obrigada”.

Pra dizer a verdade, com desconhecidos somos sempre indiferentes. Em nome das boas relações entre as pessoas, fingimos simpatia com estranhos, importamo-nos com alguns problemas alheios, bem como manda a tradição.

Uso decotes, roupas curtas e todo o resto. A distinção entre mim e uma tal qual chamem “piriguete” se dá apenas pela aplicação prática do cliché que citei no quarto parágrafo e minha cara de má. Ou seja, é mais um estigma que um diferencial.

Identifico nas situações apresentadas três alicerces da nossa sociedade: O moralismo, como principal, e secundariamente o capitalismo e o sexismo. Nosso senso de moral é dado dentro da lógica capitalista. Acredito que por mais que se fale em homofobia, racismo, xenofobia, (…) a “pobrefobia” continuará a ser o maior dos preconceitos nas sociedades capitalistas. “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald faz um belo retrato. Por mais que um defenda uma ideologia qualquer, pode relevá-la (sem deixar de acreditar, é certo) em nome de interesses financeiros. Vide o Estado Nazista Alemão, o processo em que algumas empresas, lojas e shoppings se tornaram Gay Friendly e quantas outras cenas cotidianas…

Sendo o capital o regulador da moral e até décadas atrás, o homem o provedor da família, o machismo é um valor “natural”. Sabe, mulher também repara em bunda de homem. E eu não me importo que reparem na minha, não é como se eu fosse me enfiar numa burca. Mas querer um mínimo de respeito é pedir demais? Um mínimo de discrição afeta assim, de forma tão abrupta, a virilidade de alguns homens? São mesmo as mulheres que provocam, ou certos homens que não têm a mínima noção? (Essa colocação me lembra duas coisas: uma passagem de Persépolis e esse texto aqui)

Estou farta de ouvir “é porque é homem…” (não, não tem nada, absolutamente NADA a ver com instinto. A base instintiva humana é insignificante, largue a Playboy e vá ler algo que preste!); do “lirismo comedido” das caras fechadas e gestos mecânicos; da dicotomia maniqueísta santa/vagabunda; de pensar mil vezes mais que o necessário no que vou vestir; de ser culpada simplesmente por existir, sair na rua por… São tantas coisas juntas, junto de um pouco de sono… Espero que me tenha feito entender.

PS: Sono me deixa semi-analfabeta, as letrinhas se embaralham na minha frente… relevem qualquer coisa.

*”Boyfriend” é um adjetivo usado para roupas masculinizadas ou mais folgadinhas, como se fossem “emprestadas do armário do namorado”.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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