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O Nascimento de Jesus

25 de dezembro de 2009

Atenção, conteúdo impróprio para religiosos. O escrito a seguir pode ser considerado ofensivo.

O texto a seguir faz parte de um projeto que criei de dar minha versão a lugares-comuns da Arte (em geral, cenas religiosas). Tenho alguns rascunhos, mas acordei nessa manhã de Natal com vontade de escrever algo e isso me veio à cabeça. Espero que gostem. Ah, e como avisei anteriormente, o texto PODE ser ofensivo, especialmente se você for CRISTÃO. PORTANTO NÃO LEIA E NÃO ME IRRITE!! Vou ignorar/deletar comentários desagradáveis. Pelo direito de expressão, Carol.

Amanhece. O pobre José olha a sua volta: Nada que mereça nota. Um grande deserto, isso sim. E animais esquálidos a preencher o quadro, algumas poças de excretas e excrementos pelo chão. Os três homens gordos em roupas pomposas já partiram, mal chegaram. Também, quem aguentaria longo o frio da noite, o calor impraticável do dia, o odor dos animais e das próprias gentes, os berros do rebento? Calou-se agora – ainda bem! Passara o choque do mundo à raquítica criança; por enquanto. Dissera-lhe o loiro alto e forte num vestidinho branco que o menino mudaria o mundo. Conversa! Quem era ele, trouxa de cair nas conversas que puseram barriga à mulher? Ah, mulheres… Estava lá a um canto, Maria. Gorda como uma porta. Não muito, ele imaginou, e quedaria-se fina como uma vara. Tempos difíceis, êh! E nem começavam ainda… Nem poderiam contar com os presentes mínimos trazidos pelos velhos. Muquiranas, Deus castigará! Deus, Deus… Que ganhou dele? Um bastardo para criar e uma mulher, para sustentar, sem benefícios. Pensou em como passariam todos para a história: Os animais bem cuidados e dóceis, o moleque, um herói! A mulher, uma santa, eternizada na pintura dos grandes mestres como ser da mais pura beleza – arre! E ele, o que diriam? Um frouxo, um corno… Ou pior, um pederasta! Também, para casar com uma “virgem” e mantê-la assim, só podia…


O Suplício do Papai Noel

23 de dezembro de 2009

Para aqueles que buscam um bom presente de natal (de última hora, diga-se de passagem…), eu recomendo profundamente o livro de Claude Lévi-Strauss, que dá nome a esse post. Motivado pela execução pública dos “bons velhinhos”, promovida pela Igreja Católica francesa na década de 50 do século passado, o ensaio de Lévi-Strauss aborda as origens histórico-culturais da figura do Papai Noel e sua importância para a sociedade contemporânea.

Não estou com o livro por perto para poder citar um trecho (sequer boa-vontade para procurar o que quer que seja na internet; simplesmente não suportaria aumentar o tempo de contato com um computador sem sistema operacional, espero que me entendam), mas gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito: O espírito natalino é mais que uma instituição, um reflexo da moral cristã ou um sentimento de culpa à lá “Um Conto de Natal”, do Dickens. Faz parte da identidade humana.

Comemore esse natal, independentemente de suas crenças. Lembre aos outros o quanto gosta deles e faça coisas boas não porque é natal, mas porque é preciso começar um dia, então que tal hoje mesmo? Presenteio os vivos – com um gesto que seja – já que não há mais nada por fazer pelos mortos. Esse é o sentido das festas de fim de ano: Celebrar os que restaram e perpetuar a história dos que já foram.

Escreverei mais assim que possível! Boas Festas! Ah, e leiam esse ensaio do Lévi-Strauss, vale muito a pena.


Ao Teu com o Diabo (parte II)

13 de julho de 2009

Leia a parte I aqui.

Engraçado que sempre considerei os agnósticos “ateus fracos” e acreditei piamente que o ceticismo radical fosse muito mais “seguro”, devido seu caráter estável-estático.

Quem sabe seja exatamente nessa estabilidade, na solidez ideológica, que esteja o “perigo”. Confesso não ser o maior entendedor das questões físicas, mas não é verdade que as edificações precisam de um certo balanço pra que não sejam derrubadas pelo vento ou tremores de terra? Por que seria tão diferente conosco, humanos, a ponto de considerarmos os flexíveis fracos e jogarmos-los no balaio dos indecisos e irrelevantes?

Sei que nesse meio tempo, em que me entretinha com tais questões, minha mala deu algumas voltas na esteira (vi de relance um volume amarelo passando e descarto a possibilidade de outra pessoa no mesmo voo ter uma mala de viagem amarela).

Não digo que me conformei, apenas que mais uma vez as futilidades do mundo externo acabaram suprimindo minha abstração.

Retirei por fim a tal mala amarela da esteira e rumei para o saguão. Um rapaz qualquer segurava preguiçosamente uma plaquinha precária, improvisada de um pedaço de papelão em que meu nome fora escrito com caligrafia primária, um “T” a menos, um “C” a mais e alguns respingos de gordura que eu não cheguei a ver, mas pude perfeitamente imaginar.

Bem, não havia muito que pudesse ser feito. Cheguei-me a ele, impaciente por ser levado de uma vez ao hotel, torcendo para que fosse daqueles condutores silenciosos e rápidos. Nenhum-nem outro; desatou a falar comigo.

Primeiramente, disse que não sabia quem eu era. Óbvio que não; não sou o tipo de pesquisador que recorre à mídia de massas. Tenho alguma dignidade – arrogância academicista, como queira. Então…

”Comecei a pesquisar. Não é todo dia que… Na verdade é mais comum do que você deve imaginar, mas enfim. Tinha que saber alguma coisa sobre quem eu estava levando. E devo dizer que foi um ótimo negócio. Um pesquisador tão importante quanto você… O que paguei por sua alma foi uma niñeria!”

Talvez porque nesse momento um carro nos fechou no cruzamento e começaram a soar buzinas de todos os lados, acabei alucinando as últimas sentenças dele. Fiquei meio assim de pedir que repetisse, pareceu um pouco deseducado de minha parte. Mi culpa; não prestava mesmo muita atenção que o assunto dele não me era interessante.

Só para não dizer que pouco me importava, assim que deixamos o furdûncio do cruzamento tomei os cuidados de perguntar seu nome.


Meme: Símbolos Fálicos Contemporâneos

05 de junho de 2009

O caríssimo Reverendo Beraldo me convidou para o Meme criado por ele próprio e que pretende identificar e, de certa forma, catalogar símbolos fálicos da atualidade.

Para quem não sabe o que é “falo”, o artigo da Wikipédia em inglês parece bom (não li direito, mas pelo tamanho deve ser). Para quem não sabe inglês, so bad (brincadeirinha!). O artigo em português não merece nota, procure!

A representação que escolhi não é tão recente assim, nem exclusiva dos “nossos tempos”. Porém ainda é um símbolo expressivo de poder (senão pelo absolutismo, pela “maioria” – já que a laicidade é “democrática”, não agnóstica, certo?) e, apesar de carregar imenso moralismo, inegavelmente… fálico! Dãrt! Ei-la:

Convido para participarem também o Tiago e o Rafael Slonik, bem como qualquer um que tenha interesse. Ah! E esperando também as respostas do Peterson e do Santaum, claro!


Ao Teu com o Diabo (parte I)

23 de maio de 2009

“Não existe ateu em avião em queda”. É o que não cansam de repetir os crentes e eu, em meu agnosticismo de ateu, nunca dei crédito à premissa.

Eis que, rumo a Madrid para um simpósio, meu avião entra em turbulência.

Não pense você que, por não acreditar em Deus, tenha na ciência o depósito de minha fé. Em parte sim, é verdade. De todo modo, não vejo muita distinção entre os fanáticos religiosos e alguns cientistas, em especial os físicos, que nunca vi povinho mais dado a acreditar em teorias completamente lunáticas.

Posto isso, não é exagero dizer que tenho medo de voar, até porque o que sinto é, senão, verdadeiro pavor! Tremi todo, junto com a aeronave e recostei-me na poltrona com os olhos fechados. Logo a situação se regularizou, as comissárias correram aos seus carrinhos para servir os lanches, antes que não fosse mais possível.

Conhecendo meu sistema digestório sensível e já prevendo uma próxima instabilidade, dispensei meu lanche, servindo-me apenas de um pouco de álcool. Recostei-me novamente, de olhos bem abertos dessa vez, e comecei a distrair-me com pensamentos aleatórios.

Acabei entrando na questão de meu ateísmo; se não era o caso de eu ser agnóstico, talvez… Estava a ponto de puxar conversa com o agnóstico sentado ao meu lado – já o conhecia de uma outra conferência qualquer, mas por não saber seu nome e não querer interromper a degustação que fazia de sua xícara de chá, vacilei, analisando a melhor forma de abordá-lo – quando entramos em uma nova turbulência.

Mais uma vez me subiu um frio na espinha e, não tendo o avião se reestabilizado relativamente rápido – como ocorreu na anterior – o pânico começou a se instaurar no interior da cabine. Ao tentar desviar meu olhar do desespero alheio, acabei por mirar a janelinha e a tempestade que se dava lá fora. Baixei com violência a persiana, olhando para o teto e exclamando um “ai meu Deus!”, vício de linguagem que eu havia há muito apagado do meu vocabulário.

Passado o choque de meu apelo inconsciente, o pensamento nefasto de que apenas uma força espiritual me salvaria tomou conta de mim. Nesse momento percebi a diferença nada sutil entre o agnóstico e o ateu (imagine que, em meio àquele caos, meu colega continuava concentrado em seu chá, como se nada estivesse acontecendo ao seu redor).

Assim que admiti para mim mesmo que minha única salvação seria divina, comecei a pensar em para quem rezar. Não poderia abrir mão de comer carne, tampouco colaborar com alguém que manda seus fiéis apedrejar mulheres. Minha mãe não era judia e o panteão latino era taylorista por demais, nunca saberia para quem apelar nessa circunstância.

Restou-me o deus cristão, mas tinha lá minhas dúvidas de que Ele era de fato “só amor”. Durante minha vida, nunca fui lá muito simpático com Sua omnissapiência e não O imaginava muito inclinado a perdoar minhas bastantes heresias a tempo de salvar-me do acidente iminente.

Num flash de razão, lembrei que admitir a existência de um Deus era aceitar igualmente sua antítese. Depois de uma breve entrevista com minha consciência, decidi vender minha alma imortal ao Diabo, ao preço da salvação de minha vida terrena.

Dos males, o menor. Sei lá se por isso ou não, a voz do piloto logo soou, avisando que já havíamos voltado ao normal e pousaríamos em Madrid dentro de vinte minutos.

Um dia as outras partes saem…

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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