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Ora, Homem!

15 de julho de 2010

Meu enteado, menino custoso! Cada dia me aparece com umas que nem sei de onde… Deu esses dias pra achar que era gente.

Estávamos a mãe e eu sentados na cozinha, esperando o que agora não me lembro terminar de assar – sei que o cheiro certamente era bom. Aí chega o guri, faz qualquer coisa de charme pra mulher, chama a atenção. Raio de moleque mimado. Isso eu sempre critiquei, ainda que pra mim mesmo. Não, não me atrevo travar briga dessa com a mulher…

Tá… como quem não quer nada, se achega da mãe, faz um agradinho, aguenta as mãos frias que acabaram de lavar a louça engastaiarem no cabelo que nunca vê um pente… “Precisa cuidar desse cabelo, meu filho. Passar condicionador, pentear de vez em quando…”

- É, é… – balançando os ombros – mas, mãe… eu sou homem.

Ora, homem! Nem pra rapaz pequeno!

A mulher me olha preocupada, pergunta se está tudo bem e eu desfaço minha cara de desaprovação – pra ela, de certo, o período não era nada demais. Pego os talheres na gaveta, ela a comida no forno e vamos todos ser uma família feliz na mesa da sala de jantar.


Indisposição

01 de julho de 2010

Ou: Duas formas de contar a mesma história.

Reunião de Speedies e dois-ponto-cinco-cincos numa Pâtisserie dos Jardins. Tagarelices pra cá e pra lá… E a fulana? Ah, um escarcéu! Boatos, telefonemas, porque sei-lá-quem disse que…

Passados uns dias, outro eventos. Chega a tal com sua Birkin acenando. Inicia o coro geral: Que aconteceu, querida? Que houve? Está bem? Ah, sim, sim! Foi apenas um mal estar

Uma dessas moças, uma das de Speedy monogramada pendendo no antebraço esquerdo, é acordada numa madrugada dum dia de semana pelo telefone. Estende o braço para a mesa de cabeceira, pega o telefone na base, Alô?

“Dona …, a senhora não sabe o que me aconteceu! Eu acordei às quatro e meia, saí de casa, tava quase chegando no Terminal … Tive que voltar. Me deu um piriri! Fui pro posto aqui pertinho de casa, esperei na fila, fiquei em observação depois… me deram soro. Não pude ir trabalhar! E, dona …”

Segue o relato escatológico da empregada pra patroa, em todas as minúcias, pra ver se não perdia o dia de trabalho. E fala, e fala, e a mulher embrulha o estômago. Ao final da narrativa responde um “tá bem”, desliga logo o telefone, um pouco de nojo do aparelho… Mal sabe essa D. que sua amiga foi acometida do mesmo mal na semana passada.


Passione

18 de maio de 2010

Eis um filho que cai no mundo.

E não, não é a novela da grobo.

Honestamente, creio que não caiba a mim fazer comentários a respeito deste que é meu primeiro Romance. Não tão já – pretendo sim falar a respeito da composição e coisas que me aconteceram durante o processo de escrita (o tal episódio com a Isabela, a protagonista, que comentei brevemente aqui!). Por hora, dou a vocês o tempo de ler e tirar suas próprias conclusões. Seria cruel de minha parte restringir a leitura dando previamente uma interpretação. Uma sinopse, no entanto, talvez seja interessante. Vai:

Passione é antes uma “história de amores” que uma “estória de amor”. O propósito da obra não é narrar o envolvimento entre determinadas personagens, mas revelar a maneira como se relacionam consigo mesmas, sua subjetividade. Nessa obra, a preocupação estética sobrepõe-se à elaboração do enredo: O leitor é levado de volta aos lugares-comuns da literatura infantil, embora ocorra uma mudança drástica no foco narrativo – dos salões do palácio ou bosques encantados (nos contos de fada) para o íntimo de nobres e plebeus. O texto ainda faz referências constantes a outras obras – também literárias ou não – direta e indiretamente (nenhum grão de poeira no cenário é um mero acaso; lembrando ensaio de Edgar Allan Poe sobre composição).

O download pode ser feito clicando na figura ao lado ou no header do site. Boa leitura a tod@s!

Carol.

PS: Ah! Voltarei a postar com frequência, viu? É que tava meio enrolada com essas coisas aqui.


Meet Cute

14 de fevereiro de 2010

Uma coisa que as pessoas precisam entender é que, nem sempre, um meet-cute é um Meet-Cute.Talvez eu não tenha me feito entender muito bem com essa colocação, portanto ilustrarei com um exemplo pessoal:

Era meu primeiro dia no novo escritório e, como de propósito do destino de frustrar meus planos de causar boa impressão, todo o possível e mais um pouco aconteceram para que eu estivesse em cima da hora estipulada por meu novo empregador. Suando, ajustando a gravata e as mangas da camisa, entro no elevador, cuja porta está quase se fechando. No primeiro andar, abre-se a porta. Entra uma moça. Não era uma daquelas secretárias, com luzes no cabelo e silhuetas espetaculares e quilômetros de pernas enaltecidas por sapatos de salto. Era qualquer coisa muito mais singela. Uma moça pequena em todas as dimensões, olhinhos castanhos e tímidos, sardinhas discretas, um ar angelical em contraste com o traje executivo. Uma forma infantil de balançar levemente a pasta de couro em que guardava os documentos… Lá pelo terceiro andar, já conseguira computar cada milimetro de seu ser em meu cérebro, o elevador dá um solavanco. Ela arregala seus olhos, de medo. Eu a encaro com ternura, pergunto se está tudo bem. Ela acalma-se comigo, chegamos ao quinto andar sem mais problemas, ela me deseja um bom dia…

Poder-se-ia dizer que foi coisa do destino, que criou essa situação afim de juntar duas almas que pertencem uma à outra em nome da eternidade. Pensar-se-ia que depois do incidente, flashes com lembranças dela não sairiam mais de minha mente. Ora, não são tão constantes assim! Um homem há que entender que nada há de mais comum que um amor passante, que não passa de um encontro casual em que um frisson espontâneo pode ocorrer entre os dois, sem significar o início de uma grande e devastadora paixão.

Não cruzei mais com ela, por corredor algum. E devo dizer que, nesses poucos dias após o qual nos encontramos, tenha feito já a varredura de toda a companhia, sem encontrar mais que aquela pasta de couro e um copo perto desta, marcado por baton rosa, do qual tomei posse. Então é isso o que defendo, e alerto aos jovens iniciantes: nem toda mulher em que esbarrar marcará sua vida. Uma grande bobagem pensar assim.

(Um continho pra lembrar os velhos tempos. Happy Valentine’s Day!)


As Geisys diárias

08 de janeiro de 2010

Saí há poucos dias com uma amiga para conversar e bater perna. Fazia um calor moderado, com um vento frio ocasional (graças a Éris; não nasci para os trópicos!), de forma que estava bastante confortável de shorts jeans e uma camiseta soltinha de mangas compridas. Minha amiga optou igualmente por shorts e uma camiseta no melhor estilo boyfriend*, amarrada na cintura com uma pashimina verde-água linda-de-morrer. (Ok, parei. Detalhes de nossas vestimentas não vêm ao caso, só precisava ambientar o que contarei a seguir).

Certo. Então lá estávamos nós, lindas e morena/ruiva, caminhando despreocupadamente. Despreocupadas, devo dizer, com direção ou hora de voltar pra casa. As diversas buzinadas, os assovios ou os comentários escrotos periódicos, vindos de sabe-se-lá-quens tornaram a tarde, em parte, bastante desagradável.

Uma hora qualquer, quando mais um carinha num carrinho passou buzinando e proferindo suas inconveniências (e digo carrinho porque, ao que consta nos meus registros, os caras em carros importados contentam-se em dar a passagem na rua – completarei melhor esse pensamento logo em seguida), minha amiga exteriorizou seu constrangimento. Eu acompanhei seu descontentamento, no entanto precisei protestar à sua frase seguinte: Que fosse que estivéssemos de shorts! Não apenas a constituição nos permitia, como faria a mais conservadora das fashionistas.

Preciso agora retomar brevemente um trecho de prosa que trocamos mal ela chegara ao meu encontro naquele mesmo dia. Ela me havia trazido a edição #82 da Gazeta Vargas (publicação da FGV paulistana), cuja capa chamava uma matéria sobre o “Caso Geisy” (a Gazeta é meio antiga). “Sabe, do ponto de vista da moda, ela não estava errada”, minha amiga analisou. Por “moda” ela se referia a um lugar-comum muitíssimo importante e aconselhável a toda moça que conheça: Quer mostrar X? Cubra Y, Z, W… A forma reduzida da equação: Menos é mais.

A defesa que minha amiga fez da ex-aluna da Unibandidos caberia para nós perfeitamente. Ela concordou, logo nossa expressão de desprezo se desfez e voltamos a falar amenidades.

Outra anedota, antes que eu comece a concluir: Ontem mesmo andava pelo bairro da Liberdade (nada-nada recomendável para uma donna desacompanhada, no entanto era estritamente necessário) e um homem totalmente ugh!! fez menção de pegar meu braço, falando coisas impróprias. Automaticamente acionei minha cara de nojinho, desviei o corpo e passei sem encostar na criatura (para meu grande alívio!!!!!) e pensei o que aquele infeliz fazia à toa na rua em horário comercial. Se for de interesse estatístico, vestia bermudas jeans na altura dos joelhos e regata preta sem decote. O calor era imensamente maior que no dia em que saí com minha amiga, no entanto não me atrevo a ir ao centro da cidade em trajes com que passeio nos jardins.

Ao longo do que contei até então, imagino que tenham reparado em trechos bastante/um pouco “pequena-burguesa mode on”. Tentei ao máximo inferir a essas pequenas narrativas aquilo do meu id que desponta nesses momentos e que já irei especificar.

Tem uma coisa que meu pai não cansava de repetir logo que do incidente da Geysi: não fosse ela uma pobre, nada teria acontecido.

Sutilezas separam as meninas “bem-criadas” (na falta de termo adequado, um bem mega tosco) das demais; nada ensinado diretamente, mas o tipo de hábito que se adquire com a convivência. Uma alternância controlada entre impassividade, desdém e simpatia. Veja, uma moça anda na rua e, a não ser que escoltadada por um homem, ela não sorri. Sua expressão deve ser neutra. Ela vê um cachorro passeando com o(a) dono(a), um vizinho ou algo assim; sorri de forma gentil e logo volta a seu estado de indiferença ao mundo. Um homem qualquer mexe com ela, seus lábios se curvam em desagrado, eventualmente resmunga para si algo ofensivo que saia “espontaneamente” de sua boca e mal ele passa, volta à sua impassividade inicial.

Agora imagine vem um outro homem (e isso já aconteceu comigo) e se aproxima dela com um “você vem sempre aqui?”, seguido de small talk completamente irrelevante. As intenções deste homem são as mesmas (senão mais audazes!) que as daquele primeiro. A diferença é a abordagem. Nenhum realizará seu desejo, porém esse último ganhará alguns minutos de atenção, respostas gentis e um sorriso simpático no final.

Contra o argumento de distinção social no tratamento de desconhecidos, que poderia resultar da constatação anterior dos “carros”, o último(?) exemplo pessoal: voltava do supermercado para casa e na calçada havia trabalhadores de uma floricultura ou coisa do gênero. Um deles fez com que os outros parassem a movimentação entre loja e caminhão para me dar passagem e desejou um bom dia. Recebeu “bom dia” em resposta, o tal sorriso simpático e um “obrigada”.

Pra dizer a verdade, com desconhecidos somos sempre indiferentes. Em nome das boas relações entre as pessoas, fingimos simpatia com estranhos, importamo-nos com alguns problemas alheios, bem como manda a tradição.

Uso decotes, roupas curtas e todo o resto. A distinção entre mim e uma tal qual chamem “piriguete” se dá apenas pela aplicação prática do cliché que citei no quarto parágrafo e minha cara de má. Ou seja, é mais um estigma que um diferencial.

Identifico nas situações apresentadas três alicerces da nossa sociedade: O moralismo, como principal, e secundariamente o capitalismo e o sexismo. Nosso senso de moral é dado dentro da lógica capitalista. Acredito que por mais que se fale em homofobia, racismo, xenofobia, (…) a “pobrefobia” continuará a ser o maior dos preconceitos nas sociedades capitalistas. “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald faz um belo retrato. Por mais que um defenda uma ideologia qualquer, pode relevá-la (sem deixar de acreditar, é certo) em nome de interesses financeiros. Vide o Estado Nazista Alemão, o processo em que algumas empresas, lojas e shoppings se tornaram Gay Friendly e quantas outras cenas cotidianas…

Sendo o capital o regulador da moral e até décadas atrás, o homem o provedor da família, o machismo é um valor “natural”. Sabe, mulher também repara em bunda de homem. E eu não me importo que reparem na minha, não é como se eu fosse me enfiar numa burca. Mas querer um mínimo de respeito é pedir demais? Um mínimo de discrição afeta assim, de forma tão abrupta, a virilidade de alguns homens? São mesmo as mulheres que provocam, ou certos homens que não têm a mínima noção? (Essa colocação me lembra duas coisas: uma passagem de Persépolis e esse texto aqui)

Estou farta de ouvir “é porque é homem…” (não, não tem nada, absolutamente NADA a ver com instinto. A base instintiva humana é insignificante, largue a Playboy e vá ler algo que preste!); do “lirismo comedido” das caras fechadas e gestos mecânicos; da dicotomia maniqueísta santa/vagabunda; de pensar mil vezes mais que o necessário no que vou vestir; de ser culpada simplesmente por existir, sair na rua por… São tantas coisas juntas, junto de um pouco de sono… Espero que me tenha feito entender.

PS: Sono me deixa semi-analfabeta, as letrinhas se embaralham na minha frente… relevem qualquer coisa.

*”Boyfriend” é um adjetivo usado para roupas masculinizadas ou mais folgadinhas, como se fossem “emprestadas do armário do namorado”.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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