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Velhinhas e gatos

01 de julho de 2010

Velhos, crianças… desconhecidos em geral, gosto muito à distância. Esses polos etários são recorrentes nas minhas descrições de momento, não sei se por gosto pessoal ou simplesmente os “adultos” que são muito chatos, mesmo irrelevantes, pra que se gaste tempo relatando minuciosamente a forma como compram o jornal do dia e um maço de cigarros.

Três casos de hoje:

Um: Na porta do caixa-eletrônico, esperando minha vez pra usar o Banco 24h. Sai a senhora, para de frente pra mim: Cobram taxa pra usar o 24-horas? Não sei… Nunca vi disso. Ora, que absurdo! Poisé, poisé! acabei de ver a informação na tela. Vou esperar vagar o caixa do … Ah, não era meu banco. Bom, bom. Honestamente, não sei o que me perturbou mais naquela conversa: A possibilidade de pagar as tais taxas ou a dentada da senhora maquiada por baton cobre.

Dois: Lá vou eu, pálida, me arrastando vagarosamente num vestidinho marrom até a farmácia. Resfriado maldito. Irritação inicial ao perceber que analgésicos e vitaminas C foram mudadas de lugar. Fui até o balcão, pedi pra mocinha. Muitas opções. (É difícil esse mundo capitalista!) Qual o mais barato? … O mais barato dos conhecidos? Certo… Paracetamol. A mesma coisa… Vou para o caixa, duas senhoras se achegam no balcão. Uma reclama com a outra qualquer coisa em volume inaudível. Responde: “o do posto é coisa de Po-bre!”. Vêm para caixa logo eu passo pela porta automática.

Três: Volto pra casa, me restabeleço minimamente, saio a passear com a Marrie. Faz tempo que não desço com a Marrie e dumas semanas pra cá um gato do prédio vizinho começou a ocupar nosso corredor. E o gato tava lá, né? No corredor que, tacitamente, é da Marrie. Eis que a gata, na coleira cor-de-rosa, começa a bufar pro outro felino. E sai correndo! E eu, carregada por ela. O outro se esconde deba,ixo do carro, pr’além do portão! Entra um vizinhozinho. A gata, ensandecida, se atraca na perna dele. Ah, Éris! Me desculpa, mesmo, mesmo, mesmo… ela NUNCA faz isso! Tudo bem… Gata solta da coleira, pra baixo do carro, pondo o adversário pra correr… “Tá namorando a gatinha” diz a senhora. Não, não tá. Nada contra, mas minha gata não é lésbica e o que tá acontecendo aqui é briga feia, por território! Nada de namoricos, minha senhora. “Ah, tá namorando!”… Ah, tá bom. Sorrio pra donna, cato a Marrie e, com muito custo, vamos escada acima.


Dia de Marte

27 de junho de 2010

“DIA DE MARTE, eu no Masp, cercada por Chagall.

Uma das coisas que mais me agradam nos espaços que reúnem arte são as senhoras de ar aristocrático que os frequentam. Há aqui uma num vestido verde, mules nude – bem próprio; lembrei-me de … comentando a cor – e o casaco nos ombros, marca das senhoras elegantes. Seus óculos estão na cabeça, eventualmente são – o telefone toca [infortunamente] – eventualmente eram baixados aos olhos pelas mãos delicadas.

Ela saiu do meu campo de visão e lembro agora do que pretendia falar. O Jesus-boiando de Chagall é um belo quadro.

Estou de frente para as pinturas de temática religiosa. Um homem acaba de fitar justo o que me chamou a atenção.

‘A Sarça Ardente’. Poderia escrever um filme, A Salsa Ardente: Um dançarino cubano, de nome Moisés, ilegal nos EUA, ganhando a vida num clube de salsa no subúrbio nova-iorquino.

(Já volto ao filme, um comentário urgente: jamais poria um rebento meu numa escolinha chamada ‘carinha suja’. Mas admiro que os pequenos – de carinhas limpas – são adoráveis. Tão calmos quanto pode uma criança nos seus [4 ou 5, difícil de ver o que escrevi, está rasurado] anos ser dentro de um museu, ao som de ópera. A auxiliar da professora é a típica moça bonitinha em jeans apertados…)

Voltando ao filme: (dois americanos em roupas idênticas; pai e filho? [apenas um comentário aleatório, mas daria uma boa cena...]) Moisés Moisés, na pista de dança, entusiasmado recebe visões de uma Cuba Libre: sua missão na vida é voltar a seu país e implantar um Comunismo.

Estudantes de artes (?) esboçam croquis; um dos mais malvestidos com a camisa do avesso. Teve sorte hoje? Gostaria de saber…

La Chasse aux Oiseaux me fez cantarolar a Habanera de Carmen.

(…)”

(Museu de Arte de São Paulo, tarde de 23 de março de 2010.)

PS: Entre colchetes tão comentários meus ou apenas transcrições destacadas porque, vamo combiná, né? “Infortunamente”? “Pobremente” (de espírito, faz muito sentido pr’alguém que entra num museu com o celular ligado) ou só um americanismo pobre mesmo?


Ártico

26 de junho de 2010

“Sabe quando a goma de mascar fica dura demais para ser mascada? Assim está meu cérebro – também meu chiclete, de onde tirei a analogia tosca.

Mas com o chiclé é uma coisa, que posso a qualquer momento atirá-lo no lixo, substituí-lo por outro. Meu cérebro, não sei por qual meio arrancá-lo da cabeça.

Faz frio. Visto mais blusas que todos e tenho frio. Um ártico de papel em branco à minha frente. Os relógios do aeroporto estão dessincronizados com o meu, o que me atormenta profundamente.

A aeronave pousou há pouco – atraso de uma hora, já se tornou comum por aqui. Os passageiros desembarcam, outros formam fila. Velhos, pirralhos e ricos tomam a frente… E eu começo a me desanimar pra entrar na linha.”

(Em caligrafia medonha num bloquinho de anotações, provavelmente escrito em maio de 2010 na sala de embarque de Congonhas.)

PS: Só agora notei que chiclé é anagrama de cliché. Explica muita coisa.


SC #3

28 de janeiro de 2010

Fato (in)digno de nota: Existe uma única livraria decente em Itajaí que é, na realidade, um sebo. Fato digno: É um local que vale a pena ser visitado, onde entre os clássicos é possível encontrar a obra de autores locais (não digo que sejam bons, pelo menos os que li, ao meu gosto, mas vá lá) e poetas em trabalho.

Passei essa tarde, no imenso esforço que fiz para levantar do sofá onde repousava minhas pernas inchadas, na busca de um bom presente para minha mãe. Entrei na Casa Aberta (o nome da tal livraria alternativa) e apesar de não encontrar exatamente o que tinha em mente, fiz uma compra tão boa quanto. A vendedora que me atendeu era um amor e sabia perfeitamente bem o que estava fazendo lá (oh, como eu tenho raiva de livreiros que só conhecem a seção de auto-ajuda!). Conheci um poeta, que me ajudou na busca pelo presente. Infelizmente não perguntei seu nome ou uma forma de conhecer seu trabalho. Ou quem sabe até melhor assim, mas minhas notas sobre poesia ficam pra outro dia e estado de espírito.


O Nascimento de Jesus

25 de dezembro de 2009

Atenção, conteúdo impróprio para religiosos. O escrito a seguir pode ser considerado ofensivo.

O texto a seguir faz parte de um projeto que criei de dar minha versão a lugares-comuns da Arte (em geral, cenas religiosas). Tenho alguns rascunhos, mas acordei nessa manhã de Natal com vontade de escrever algo e isso me veio à cabeça. Espero que gostem. Ah, e como avisei anteriormente, o texto PODE ser ofensivo, especialmente se você for CRISTÃO. PORTANTO NÃO LEIA E NÃO ME IRRITE!! Vou ignorar/deletar comentários desagradáveis. Pelo direito de expressão, Carol.

Amanhece. O pobre José olha a sua volta: Nada que mereça nota. Um grande deserto, isso sim. E animais esquálidos a preencher o quadro, algumas poças de excretas e excrementos pelo chão. Os três homens gordos em roupas pomposas já partiram, mal chegaram. Também, quem aguentaria longo o frio da noite, o calor impraticável do dia, o odor dos animais e das próprias gentes, os berros do rebento? Calou-se agora – ainda bem! Passara o choque do mundo à raquítica criança; por enquanto. Dissera-lhe o loiro alto e forte num vestidinho branco que o menino mudaria o mundo. Conversa! Quem era ele, trouxa de cair nas conversas que puseram barriga à mulher? Ah, mulheres… Estava lá a um canto, Maria. Gorda como uma porta. Não muito, ele imaginou, e quedaria-se fina como uma vara. Tempos difíceis, êh! E nem começavam ainda… Nem poderiam contar com os presentes mínimos trazidos pelos velhos. Muquiranas, Deus castigará! Deus, Deus… Que ganhou dele? Um bastardo para criar e uma mulher, para sustentar, sem benefícios. Pensou em como passariam todos para a história: Os animais bem cuidados e dóceis, o moleque, um herói! A mulher, uma santa, eternizada na pintura dos grandes mestres como ser da mais pura beleza – arre! E ele, o que diriam? Um frouxo, um corno… Ou pior, um pederasta! Também, para casar com uma “virgem” e mantê-la assim, só podia…

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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