Conheça Aninha. E óbvio, esse nome é fictício. Ela nem tem cara de Aninha, mas para evitar futuras confusões pronominais, resolvi chamá-la assim.
Então, Aninha. Falávamos dela. Minha primeira impressão da menina foi irrelevante. Exceto quando falava: achava-a prolixa e tediosa. Não tinha grande paciência com a pobre.
Elogiei seu esmalte uma vez (era a primeira vez que a via usar uma cor discreta e, sem absolutamente nada contra cores berrantes – minha coleção conta uns 30 vidrinhos, nos tons mais inusitados -, a primeira vez que realmente achei que suas unhas favoreciam o look num todo). Ela ficou bem feliz, pareceu, e bastante espantada, sem dúvida. Não era incomum que divergisse das colocações dela ou interrompesse suas falas em discussões. (Não excluo a hipótese demasiadamente cientificista de uma batalha instintiva pelo único hetero do recinto… tá, voltando ao assunto:) Fiz o elogio e simpatizei com ela depois disso.
Quando eu simpatizo com alguém, é algo como… “Tá, eu aguento você, acho legalzinho, mas não chega muito perto de mim”. E foi me tornando mais tolerante com a Aninha que comecei a entendê-la.
Ela tem essa necessidade de se afirmar; uma coisa que tende à paranoia de ser reconhecida; urgência em deixar a menoridade… Ih, mil coisas dá pra dizer! E, sabe, agora que estou largando, mas há pouco tempo vivia nesse complexo de ser levada a sério, pensando (com alguma razão) que a maioria das pessoas que me cercam não deveriam estar ali. Eu não deveria estar.
O que não quer dizer que terei paciência com os “ataques da Aninha”; as citações seguidas de fonte bibliográfica completa, a rigidez formal e as desculpas sem fim que ela pensa me dever (é com carinho, mas: tolinha!) para atividades vulgares – eu sei o quanto você é culta, darling. Você cantar Cyndi Lauper no chuveiro não muda minha opinião sobre sua pessoa! – como se fosse heresia ler Foucault e gostar da Hello Kitty… Não é culpa dela. Compreendo perfeitamente, been there, done that! Sou impaciente mesmo, ponto.
De qualquer forma, é legal isso, da Aninha me considerar a ponto de zelar pela imagem que faço dela. (Não é só comigo, falo do meu ponto de vista.)
No momento, eu e Aninha estamos amiguinhas. One step at a time. Apoio bastante sua iniciativa de se emancipar (admiro também, o mundo precisa de mais gente afim de se “esclarecer”!), embora adimita: estou ansiosa pelo dia em que ela discutirá temas profundos com toda a propriedade que tem, no tom informal de quem participa duma roda de amigos entornando scotch, com cubanos à mão.