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SC #3

28 de janeiro de 2010

Fato (in)digno de nota: Existe uma única livraria decente em Itajaí que é, na realidade, um sebo. Fato digno: É um local que vale a pena ser visitado, onde entre os clássicos é possível encontrar a obra de autores locais (não digo que sejam bons, pelo menos os que li, ao meu gosto, mas vá lá) e poetas em trabalho.

Passei essa tarde, no imenso esforço que fiz para levantar do sofá onde repousava minhas pernas inchadas, na busca de um bom presente para minha mãe. Entrei na Casa Aberta (o nome da tal livraria alternativa) e apesar de não encontrar exatamente o que tinha em mente, fiz uma compra tão boa quanto. A vendedora que me atendeu era um amor e sabia perfeitamente bem o que estava fazendo lá (oh, como eu tenho raiva de livreiros que só conhecem a seção de auto-ajuda!). Conheci um poeta, que me ajudou na busca pelo presente. Infelizmente não perguntei seu nome ou uma forma de conhecer seu trabalho. Ou quem sabe até melhor assim, mas minhas notas sobre poesia ficam pra outro dia e estado de espírito.


O Nascimento de Jesus

25 de dezembro de 2009

Atenção, conteúdo impróprio para religiosos. O escrito a seguir pode ser considerado ofensivo.

O texto a seguir faz parte de um projeto que criei de dar minha versão a lugares-comuns da Arte (em geral, cenas religiosas). Tenho alguns rascunhos, mas acordei nessa manhã de Natal com vontade de escrever algo e isso me veio à cabeça. Espero que gostem. Ah, e como avisei anteriormente, o texto PODE ser ofensivo, especialmente se você for CRISTÃO. PORTANTO NÃO LEIA E NÃO ME IRRITE!! Vou ignorar/deletar comentários desagradáveis. Pelo direito de expressão, Carol.

Amanhece. O pobre José olha a sua volta: Nada que mereça nota. Um grande deserto, isso sim. E animais esquálidos a preencher o quadro, algumas poças de excretas e excrementos pelo chão. Os três homens gordos em roupas pomposas já partiram, mal chegaram. Também, quem aguentaria longo o frio da noite, o calor impraticável do dia, o odor dos animais e das próprias gentes, os berros do rebento? Calou-se agora – ainda bem! Passara o choque do mundo à raquítica criança; por enquanto. Dissera-lhe o loiro alto e forte num vestidinho branco que o menino mudaria o mundo. Conversa! Quem era ele, trouxa de cair nas conversas que puseram barriga à mulher? Ah, mulheres… Estava lá a um canto, Maria. Gorda como uma porta. Não muito, ele imaginou, e quedaria-se fina como uma vara. Tempos difíceis, êh! E nem começavam ainda… Nem poderiam contar com os presentes mínimos trazidos pelos velhos. Muquiranas, Deus castigará! Deus, Deus… Que ganhou dele? Um bastardo para criar e uma mulher, para sustentar, sem benefícios. Pensou em como passariam todos para a história: Os animais bem cuidados e dóceis, o moleque, um herói! A mulher, uma santa, eternizada na pintura dos grandes mestres como ser da mais pura beleza – arre! E ele, o que diriam? Um frouxo, um corno… Ou pior, um pederasta! Também, para casar com uma “virgem” e mantê-la assim, só podia…


Neuroses necessárias

05 de dezembro de 2009

Conheça Aninha. E óbvio, esse nome é fictício. Ela nem tem cara de Aninha, mas para evitar futuras confusões pronominais, resolvi chamá-la assim.

Então, Aninha. Falávamos dela. Minha primeira impressão da menina foi irrelevante. Exceto quando falava: achava-a prolixa e tediosa. Não tinha grande paciência com a pobre.

Elogiei seu esmalte uma vez (era a primeira vez que a via usar uma cor discreta e, sem absolutamente nada contra cores berrantes – minha coleção conta uns 30 vidrinhos, nos tons mais inusitados -, a primeira vez que realmente achei que suas unhas favoreciam o look num todo). Ela ficou bem feliz, pareceu, e bastante espantada, sem dúvida. Não era incomum que divergisse das colocações dela ou interrompesse suas falas em discussões. (Não excluo a hipótese demasiadamente cientificista de uma batalha instintiva pelo único hetero do recinto… tá, voltando ao assunto:) Fiz o elogio e simpatizei com ela depois disso.

Quando eu simpatizo com alguém, é algo como… “Tá, eu aguento você, acho legalzinho, mas não chega muito perto de mim”. E foi me tornando mais tolerante com a Aninha que comecei a entendê-la.

Ela tem essa necessidade de se afirmar; uma coisa que tende à paranoia de ser reconhecida; urgência em deixar a menoridade… Ih, mil coisas dá pra dizer! E, sabe, agora que estou largando, mas há pouco tempo vivia nesse complexo de ser levada a sério, pensando (com alguma razão) que a maioria das pessoas que me cercam não deveriam estar ali. Eu não deveria estar.

O que não quer dizer que terei paciência com os “ataques da Aninha”; as citações seguidas de fonte bibliográfica completa, a rigidez formal e as desculpas sem fim que ela pensa me dever (é com carinho, mas: tolinha!) para atividades vulgares – eu sei o quanto você é culta, darling. Você cantar Cyndi Lauper no chuveiro não muda minha opinião sobre sua pessoa! – como se fosse heresia ler Foucault e gostar da Hello Kitty… Não é culpa dela. Compreendo perfeitamente, been there, done that! Sou impaciente mesmo, ponto.

De qualquer forma, é legal isso, da Aninha me considerar a ponto de zelar pela imagem que faço dela. (Não é só comigo, falo do meu ponto de vista.)

No momento, eu e Aninha estamos amiguinhas. One step at a time. Apoio bastante sua iniciativa de se emancipar (admiro também, o mundo precisa de mais gente afim de se “esclarecer”!), embora adimita: estou ansiosa pelo dia em que ela discutirá temas profundos com toda a propriedade que tem, no tom informal de quem participa duma roda de amigos entornando scotch, com cubanos à mão.


Frações

28 de novembro de 2009

1/2 de sábado, um quarto bagunçado. Meus e-tickets no chão, pedaços da embalagem do Toddynho dispostos aleatoriamente sobre a escrivaninha, sapatos desordenados, vestidos de festa sobre a cadeira, roupas passadas esperando ser guardadas em suas respectivas gavetas, lip balms nqa cabeceira, competindo com as pilhas de livros, ansiosos por serem abertos. Friedrich me encara do poster na parede, com seu rosto mutilado pelas unhas de Marrie. Ela dorme, e observo sua respiração serena; a agitação das orelhinhas ao menor ruído. Há também um pincel sob a cadeira, que não sei o que faz ali. Existem mais coisas fora do lugar, ou no mínimo, organizadas de forma inusitada. Outras coisas, não imagino o que fazer: velhas provas, cadernos de escola, apostilas… coisas que o fim do ano letivo tratou de inutilizar. Particularmente, não sei se estou eu mesma no lugar correto. Se não me tornei inútil com o fim do ciclo escolar. Senão… 1/8 de ano até que tudo encontre seu lugar.


Mulheres e suas Vuitton

26 de novembro de 2009

Saí no sábado passado, véspera da prova da FUVEST. Cheguei em casa e papis tinha um mimo pra mim: uma edição comemorativa de “O Suplício do Papai Noel” (mais perto do natal eu comento a leitura, pode ser?), em razão do meu primeiro vestibular. Fiquei empolgadíssima, lógico! Afinal, meu primeiro Lévi-Strauss!

Comentei com um amigo, assim que desembrulhei o volume. Ele se referiu à minha euforia, dizendo que parecia “uma patricinha que ganha sua primeira Louis Vuitton”. Eu ri. Em seguida, perguntei timidamente a ele se era algo positivo. Sim, sim – ele se apressou em garantir. Mas apenas por se tratar de um livro.

Eu já imaginava a resposta dele, pra ser sincera. Porém, não custava nada confirmar – ainda mais visto que tempos atrás, se ele não chegava a me ver como uma menininha fútil, tampouco via como intelectual. Ok, passou.

Na segunda-feira, saí com uma amiga (aliás, amiga em comum com ele). Ela tinha feito aniversário há poucos dias e exibia orgulhosa a edição especial que ganhara, embora fosse uma Longchamp, não um Lévi-Strauss.

Pensei na classificação dele para o contentamento de nossa amiga. Não só por ela ser uma das melhores amigas que tenho, simplesmente não consigo considerá-la fútil por conta de sua obsessão por bolsas. Arriscando um pouco mais, ouso dizer quenão vejo diferença entre a obsessão dela e minha compulsão por livros. E isso não é informação que cause choque!

Talvez a um estranho pareça sim futilidade. Cabe então a mim comentar que essa amiga é das mais cultas. Alguém com quem posso discutir moda como arte (tenho raiva mortal de gente que discute “roupa” e pensa falar de moda…) e para quem consigo citar Hannah Arendt e ser compreendida. É alguém que assumiu a postura de estudar semiótica por conta própria, a despeito do desinteresse de seus colegas . Independente de seu lado “capitalista” (sic) – do qual não me isento, que minha paixão por sapatos é próxima à por livros – minha amiga não é apenas uma boa pessoa, como uma pessoa consciente e que sabe perfeitamente bem exercer sua racionalidade.

Há mesmo contradição em ser uma erudita que se importa com acessórios? São preferíveis os falso-moralistas, os pseudo-politizados de discursos doutrinários e intolerantes, os…? Finalmente, digo que fiquei tão animada com a bolsa nova dela quanto ela com meu livro. E não pense que foi nula, bem pelo contrário!

Incoerente?

Do meu gosto… Tirei essa foto há tanto tempo, tava esperando uma oportunidade pra postá-la.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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