Saí há poucos dias com uma amiga para conversar e bater perna. Fazia um calor moderado, com um vento frio ocasional (graças a Éris; não nasci para os trópicos!), de forma que estava bastante confortável de shorts jeans e uma camiseta soltinha de mangas compridas. Minha amiga optou igualmente por shorts e uma camiseta no melhor estilo boyfriend*, amarrada na cintura com uma pashimina verde-água linda-de-morrer. (Ok, parei. Detalhes de nossas vestimentas não vêm ao caso, só precisava ambientar o que contarei a seguir).
Certo. Então lá estávamos nós, lindas e morena/ruiva, caminhando despreocupadamente. Despreocupadas, devo dizer, com direção ou hora de voltar pra casa. As diversas buzinadas, os assovios ou os comentários escrotos periódicos, vindos de sabe-se-lá-quens tornaram a tarde, em parte, bastante desagradável.
Uma hora qualquer, quando mais um carinha num carrinho passou buzinando e proferindo suas inconveniências (e digo carrinho porque, ao que consta nos meus registros, os caras em carros importados contentam-se em dar a passagem na rua – completarei melhor esse pensamento logo em seguida), minha amiga exteriorizou seu constrangimento. Eu acompanhei seu descontentamento, no entanto precisei protestar à sua frase seguinte: Que fosse que estivéssemos de shorts! Não apenas a constituição nos permitia, como faria a mais conservadora das fashionistas.
Preciso agora retomar brevemente um trecho de prosa que trocamos mal ela chegara ao meu encontro naquele mesmo dia. Ela me havia trazido a edição #82 da Gazeta Vargas (publicação da FGV paulistana), cuja capa chamava uma matéria sobre o “Caso Geisy” (a Gazeta é meio antiga). “Sabe, do ponto de vista da moda, ela não estava errada”, minha amiga analisou. Por “moda” ela se referia a um lugar-comum muitíssimo importante e aconselhável a toda moça que conheça: Quer mostrar X? Cubra Y, Z, W… A forma reduzida da equação: Menos é mais.
A defesa que minha amiga fez da ex-aluna da Unibandidos caberia para nós perfeitamente. Ela concordou, logo nossa expressão de desprezo se desfez e voltamos a falar amenidades.
Outra anedota, antes que eu comece a concluir: Ontem mesmo andava pelo bairro da Liberdade (nada-nada recomendável para uma donna desacompanhada, no entanto era estritamente necessário) e um homem totalmente ugh!! fez menção de pegar meu braço, falando coisas impróprias. Automaticamente acionei minha cara de nojinho, desviei o corpo e passei sem encostar na criatura (para meu grande alívio!!!!!) e pensei o que aquele infeliz fazia à toa na rua em horário comercial. Se for de interesse estatístico, vestia bermudas jeans na altura dos joelhos e regata preta sem decote. O calor era imensamente maior que no dia em que saí com minha amiga, no entanto não me atrevo a ir ao centro da cidade em trajes com que passeio nos jardins.
Ao longo do que contei até então, imagino que tenham reparado em trechos bastante/um pouco “pequena-burguesa mode on”. Tentei ao máximo inferir a essas pequenas narrativas aquilo do meu id que desponta nesses momentos e que já irei especificar.
Tem uma coisa que meu pai não cansava de repetir logo que do incidente da Geysi: não fosse ela uma pobre, nada teria acontecido.
Sutilezas separam as meninas “bem-criadas” (na falta de termo adequado, um bem mega tosco) das demais; nada ensinado diretamente, mas o tipo de hábito que se adquire com a convivência. Uma alternância controlada entre impassividade, desdém e simpatia. Veja, uma moça anda na rua e, a não ser que escoltadada por um homem, ela não sorri. Sua expressão deve ser neutra. Ela vê um cachorro passeando com o(a) dono(a), um vizinho ou algo assim; sorri de forma gentil e logo volta a seu estado de indiferença ao mundo. Um homem qualquer mexe com ela, seus lábios se curvam em desagrado, eventualmente resmunga para si algo ofensivo que saia “espontaneamente” de sua boca e mal ele passa, volta à sua impassividade inicial.
Agora imagine vem um outro homem (e isso já aconteceu comigo) e se aproxima dela com um “você vem sempre aqui?”, seguido de small talk completamente irrelevante. As intenções deste homem são as mesmas (senão mais audazes!) que as daquele primeiro. A diferença é a abordagem. Nenhum realizará seu desejo, porém esse último ganhará alguns minutos de atenção, respostas gentis e um sorriso simpático no final.
Contra o argumento de distinção social no tratamento de desconhecidos, que poderia resultar da constatação anterior dos “carros”, o último(?) exemplo pessoal: voltava do supermercado para casa e na calçada havia trabalhadores de uma floricultura ou coisa do gênero. Um deles fez com que os outros parassem a movimentação entre loja e caminhão para me dar passagem e desejou um bom dia. Recebeu “bom dia” em resposta, o tal sorriso simpático e um “obrigada”.
Pra dizer a verdade, com desconhecidos somos sempre indiferentes. Em nome das boas relações entre as pessoas, fingimos simpatia com estranhos, importamo-nos com alguns problemas alheios, bem como manda a tradição.
Uso decotes, roupas curtas e todo o resto. A distinção entre mim e uma tal qual chamem “piriguete” se dá apenas pela aplicação prática do cliché que citei no quarto parágrafo e minha cara de má. Ou seja, é mais um estigma que um diferencial.
Identifico nas situações apresentadas três alicerces da nossa sociedade: O moralismo, como principal, e secundariamente o capitalismo e o sexismo. Nosso senso de moral é dado dentro da lógica capitalista. Acredito que por mais que se fale em homofobia, racismo, xenofobia, (…) a “pobrefobia” continuará a ser o maior dos preconceitos nas sociedades capitalistas. “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald faz um belo retrato. Por mais que um defenda uma ideologia qualquer, pode relevá-la (sem deixar de acreditar, é certo) em nome de interesses financeiros. Vide o Estado Nazista Alemão, o processo em que algumas empresas, lojas e shoppings se tornaram Gay Friendly e quantas outras cenas cotidianas…
Sendo o capital o regulador da moral e até décadas atrás, o homem o provedor da família, o machismo é um valor “natural”. Sabe, mulher também repara em bunda de homem. E eu não me importo que reparem na minha, não é como se eu fosse me enfiar numa burca. Mas querer um mínimo de respeito é pedir demais? Um mínimo de discrição afeta assim, de forma tão abrupta, a virilidade de alguns homens? São mesmo as mulheres que provocam, ou certos homens que não têm a mínima noção? (Essa colocação me lembra duas coisas: uma passagem de Persépolis e esse texto aqui)
Estou farta de ouvir “é porque é homem…” (não, não tem nada, absolutamente NADA a ver com instinto. A base instintiva humana é insignificante, largue a Playboy e vá ler algo que preste!); do “lirismo comedido” das caras fechadas e gestos mecânicos; da dicotomia maniqueísta santa/vagabunda; de pensar mil vezes mais que o necessário no que vou vestir; de ser culpada simplesmente por existir, sair na rua por… São tantas coisas juntas, junto de um pouco de sono… Espero que me tenha feito entender.
PS: Sono me deixa semi-analfabeta, as letrinhas se embaralham na minha frente… relevem qualquer coisa.
*”Boyfriend” é um adjetivo usado para roupas masculinizadas ou mais folgadinhas, como se fossem “emprestadas do armário do namorado”.