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Indisposição

01 de julho de 2010

Ou: Duas formas de contar a mesma história.

Reunião de Speedies e dois-ponto-cinco-cincos numa Pâtisserie dos Jardins. Tagarelices pra cá e pra lá… E a fulana? Ah, um escarcéu! Boatos, telefonemas, porque sei-lá-quem disse que…

Passados uns dias, outro eventos. Chega a tal com sua Birkin acenando. Inicia o coro geral: Que aconteceu, querida? Que houve? Está bem? Ah, sim, sim! Foi apenas um mal estar

Uma dessas moças, uma das de Speedy monogramada pendendo no antebraço esquerdo, é acordada numa madrugada dum dia de semana pelo telefone. Estende o braço para a mesa de cabeceira, pega o telefone na base, Alô?

“Dona …, a senhora não sabe o que me aconteceu! Eu acordei às quatro e meia, saí de casa, tava quase chegando no Terminal … Tive que voltar. Me deu um piriri! Fui pro posto aqui pertinho de casa, esperei na fila, fiquei em observação depois… me deram soro. Não pude ir trabalhar! E, dona …”

Segue o relato escatológico da empregada pra patroa, em todas as minúcias, pra ver se não perdia o dia de trabalho. E fala, e fala, e a mulher embrulha o estômago. Ao final da narrativa responde um “tá bem”, desliga logo o telefone, um pouco de nojo do aparelho… Mal sabe essa D. que sua amiga foi acometida do mesmo mal na semana passada.


Que dia é hoje?

08 de março de 2010

Juro pra vocês, trocar minha primeira lâmpada sozinha foi bastante emocionante. Deu uma sensação de auto-suficiência, uma coisa tão boa… De repente era Louise Michel comandando minha própria revolução, dentro de meu quarto instaurava-se uma Comuna. Aí eu desci cuidadosamente da cadeira do computador e voltei à realidade.

Uma coisa que não suporto em datas como Dia Internacional da Mulher, Dia da Consciência Negra, Dia das Mães, dia do diabo a quatro… são as milhões de mensagens toscas que invadem as caixas de email, com que nos bombardeiam nas sinaleiras e quadros de aviso do condomínio. Fico com as flores; os pensamentos ilustrados em power point e os poemas amadores, dispenso. Todos. Não leio um sequer. É ver .gif ou letrinhas coloridas que fujo num instante.

Tenho verdadeiro PAVOR de cliché! Ok, mentira. Tenho não. Eu gosto do cliché, gosto mesmo. Mas não assim na forma bruta e vulgar. Ele precisa ser trabalhado, limado – trabalho deveras parnasiano, no entanto, o resultado aconselhado é qualquer coisa menos isso!

Voltando ao que eu queria dizer quando comecei esse texto, foda-se que a mulher tem mais inteligência emocional ou sei-lá-que-raios! Foda-se o lirismo descomedido dos cartões comerciais. Foda-se também a repulsa à data. É só mais um dia, nem feriado é! Se quer um homem homenagear suas mulheres (não no sentido poligâmico, refiro-me a mãe, vós, amigas, tias, sobrinhas, namorada…), comprar rosas, dizer parabéns, ora! Deixe o menino. É uma gentileza, não um atestado de virilidade. Aqueles que precisam tão desesperadamente demonstrar sua pretensa superioridade sexual não gastam seu dinheiro com outra coisa que não academias, sons automotivos e todo a sorte de parafernalhas para exibir-se. Seu narcisismo não permitiria.

Nesse contexto, após livrar a alma daqueles que não fazem por mal perpetuar a existência desse dia tão inútil, retomo o nome citado no primeiro parágrafo: Admiro profundamente a mulher que foi Clémence, ela é um dos meus “exemplos a ser seguido”. No entanto, nossas lutas não são as mesmas.

Não vejo hoje cabimento no feminismo. A briguinha maniqueísta entre os sexismos não passa disso: uma disputa por adeptos, em detrimento da luta por direitos civis necessários e urgentes.

Este e qualquer outro Dia X, assim como os 364 restantes no calendário não-bissextos, ao invés de servir de palco para discursos antigos ou listas quilométricas enumerando vantagens femininas (“prioridade em botes salva-vidas; orgasmos múltiplos; a mulher do presidente é primeira dama, enquanto o marido da presidente é inominado…” tenha dó!), deveria sediar debates sobre a circuncisão bárbara de meninas (praticada e perpetuada pelas próprias mulheres!) em certas culturas, majoritariamente na África e Ásia; sobre a legalização do aborto no Brasil… E não porque são mulheres; porque são o “sexo frágil”, devem ser protegidas. Porque são seres humanos!

O mesmo deve ser feito em relação à união civil de pessoas do mesmo sexo, à adoção de crianças por esses casais; rediscutir o sistema de cotas, reavaliar e investir na educação básica (onde, como, quanto? Já!), ampliar o acesso à universidade…

Nada me impede de ganhar flores qualquer outro dia. Por que impediria de pensar em políticas públicas também? Hã?

Pra terminar de forma mais agradável, deixo uma lembrancinha aos homens; uma tradução livre em prosa da primeira estrofe de Cows in Art Class, poema de Charles Bukowski, dos meus favoritos:

Bom tempo é como uma boa mulher: nem sempre acontece. E quando acontece, nem sempre dura. Homens são mais estáveis: se ele for mal, há uma boa chance de que o continue sendo; se for bom, talvez permaneça assim. Mas as mulheres são mudadas pela idade, pelas dietas, diálogo, sexo, crianças, pela Lua, pela ausência ou presença do Sol ou bons momentos. Uma mulher deve ser curada, para sua sobrevivência, com amor, ao passo que um homem torna-se mais forte quando odiado.


Meet Cute

14 de fevereiro de 2010

Uma coisa que as pessoas precisam entender é que, nem sempre, um meet-cute é um Meet-Cute.Talvez eu não tenha me feito entender muito bem com essa colocação, portanto ilustrarei com um exemplo pessoal:

Era meu primeiro dia no novo escritório e, como de propósito do destino de frustrar meus planos de causar boa impressão, todo o possível e mais um pouco aconteceram para que eu estivesse em cima da hora estipulada por meu novo empregador. Suando, ajustando a gravata e as mangas da camisa, entro no elevador, cuja porta está quase se fechando. No primeiro andar, abre-se a porta. Entra uma moça. Não era uma daquelas secretárias, com luzes no cabelo e silhuetas espetaculares e quilômetros de pernas enaltecidas por sapatos de salto. Era qualquer coisa muito mais singela. Uma moça pequena em todas as dimensões, olhinhos castanhos e tímidos, sardinhas discretas, um ar angelical em contraste com o traje executivo. Uma forma infantil de balançar levemente a pasta de couro em que guardava os documentos… Lá pelo terceiro andar, já conseguira computar cada milimetro de seu ser em meu cérebro, o elevador dá um solavanco. Ela arregala seus olhos, de medo. Eu a encaro com ternura, pergunto se está tudo bem. Ela acalma-se comigo, chegamos ao quinto andar sem mais problemas, ela me deseja um bom dia…

Poder-se-ia dizer que foi coisa do destino, que criou essa situação afim de juntar duas almas que pertencem uma à outra em nome da eternidade. Pensar-se-ia que depois do incidente, flashes com lembranças dela não sairiam mais de minha mente. Ora, não são tão constantes assim! Um homem há que entender que nada há de mais comum que um amor passante, que não passa de um encontro casual em que um frisson espontâneo pode ocorrer entre os dois, sem significar o início de uma grande e devastadora paixão.

Não cruzei mais com ela, por corredor algum. E devo dizer que, nesses poucos dias após o qual nos encontramos, tenha feito já a varredura de toda a companhia, sem encontrar mais que aquela pasta de couro e um copo perto desta, marcado por baton rosa, do qual tomei posse. Então é isso o que defendo, e alerto aos jovens iniciantes: nem toda mulher em que esbarrar marcará sua vida. Uma grande bobagem pensar assim.

(Um continho pra lembrar os velhos tempos. Happy Valentine’s Day!)


As Geisys diárias

08 de janeiro de 2010

Saí há poucos dias com uma amiga para conversar e bater perna. Fazia um calor moderado, com um vento frio ocasional (graças a Éris; não nasci para os trópicos!), de forma que estava bastante confortável de shorts jeans e uma camiseta soltinha de mangas compridas. Minha amiga optou igualmente por shorts e uma camiseta no melhor estilo boyfriend*, amarrada na cintura com uma pashimina verde-água linda-de-morrer. (Ok, parei. Detalhes de nossas vestimentas não vêm ao caso, só precisava ambientar o que contarei a seguir).

Certo. Então lá estávamos nós, lindas e morena/ruiva, caminhando despreocupadamente. Despreocupadas, devo dizer, com direção ou hora de voltar pra casa. As diversas buzinadas, os assovios ou os comentários escrotos periódicos, vindos de sabe-se-lá-quens tornaram a tarde, em parte, bastante desagradável.

Uma hora qualquer, quando mais um carinha num carrinho passou buzinando e proferindo suas inconveniências (e digo carrinho porque, ao que consta nos meus registros, os caras em carros importados contentam-se em dar a passagem na rua – completarei melhor esse pensamento logo em seguida), minha amiga exteriorizou seu constrangimento. Eu acompanhei seu descontentamento, no entanto precisei protestar à sua frase seguinte: Que fosse que estivéssemos de shorts! Não apenas a constituição nos permitia, como faria a mais conservadora das fashionistas.

Preciso agora retomar brevemente um trecho de prosa que trocamos mal ela chegara ao meu encontro naquele mesmo dia. Ela me havia trazido a edição #82 da Gazeta Vargas (publicação da FGV paulistana), cuja capa chamava uma matéria sobre o “Caso Geisy” (a Gazeta é meio antiga). “Sabe, do ponto de vista da moda, ela não estava errada”, minha amiga analisou. Por “moda” ela se referia a um lugar-comum muitíssimo importante e aconselhável a toda moça que conheça: Quer mostrar X? Cubra Y, Z, W… A forma reduzida da equação: Menos é mais.

A defesa que minha amiga fez da ex-aluna da Unibandidos caberia para nós perfeitamente. Ela concordou, logo nossa expressão de desprezo se desfez e voltamos a falar amenidades.

Outra anedota, antes que eu comece a concluir: Ontem mesmo andava pelo bairro da Liberdade (nada-nada recomendável para uma donna desacompanhada, no entanto era estritamente necessário) e um homem totalmente ugh!! fez menção de pegar meu braço, falando coisas impróprias. Automaticamente acionei minha cara de nojinho, desviei o corpo e passei sem encostar na criatura (para meu grande alívio!!!!!) e pensei o que aquele infeliz fazia à toa na rua em horário comercial. Se for de interesse estatístico, vestia bermudas jeans na altura dos joelhos e regata preta sem decote. O calor era imensamente maior que no dia em que saí com minha amiga, no entanto não me atrevo a ir ao centro da cidade em trajes com que passeio nos jardins.

Ao longo do que contei até então, imagino que tenham reparado em trechos bastante/um pouco “pequena-burguesa mode on”. Tentei ao máximo inferir a essas pequenas narrativas aquilo do meu id que desponta nesses momentos e que já irei especificar.

Tem uma coisa que meu pai não cansava de repetir logo que do incidente da Geysi: não fosse ela uma pobre, nada teria acontecido.

Sutilezas separam as meninas “bem-criadas” (na falta de termo adequado, um bem mega tosco) das demais; nada ensinado diretamente, mas o tipo de hábito que se adquire com a convivência. Uma alternância controlada entre impassividade, desdém e simpatia. Veja, uma moça anda na rua e, a não ser que escoltadada por um homem, ela não sorri. Sua expressão deve ser neutra. Ela vê um cachorro passeando com o(a) dono(a), um vizinho ou algo assim; sorri de forma gentil e logo volta a seu estado de indiferença ao mundo. Um homem qualquer mexe com ela, seus lábios se curvam em desagrado, eventualmente resmunga para si algo ofensivo que saia “espontaneamente” de sua boca e mal ele passa, volta à sua impassividade inicial.

Agora imagine vem um outro homem (e isso já aconteceu comigo) e se aproxima dela com um “você vem sempre aqui?”, seguido de small talk completamente irrelevante. As intenções deste homem são as mesmas (senão mais audazes!) que as daquele primeiro. A diferença é a abordagem. Nenhum realizará seu desejo, porém esse último ganhará alguns minutos de atenção, respostas gentis e um sorriso simpático no final.

Contra o argumento de distinção social no tratamento de desconhecidos, que poderia resultar da constatação anterior dos “carros”, o último(?) exemplo pessoal: voltava do supermercado para casa e na calçada havia trabalhadores de uma floricultura ou coisa do gênero. Um deles fez com que os outros parassem a movimentação entre loja e caminhão para me dar passagem e desejou um bom dia. Recebeu “bom dia” em resposta, o tal sorriso simpático e um “obrigada”.

Pra dizer a verdade, com desconhecidos somos sempre indiferentes. Em nome das boas relações entre as pessoas, fingimos simpatia com estranhos, importamo-nos com alguns problemas alheios, bem como manda a tradição.

Uso decotes, roupas curtas e todo o resto. A distinção entre mim e uma tal qual chamem “piriguete” se dá apenas pela aplicação prática do cliché que citei no quarto parágrafo e minha cara de má. Ou seja, é mais um estigma que um diferencial.

Identifico nas situações apresentadas três alicerces da nossa sociedade: O moralismo, como principal, e secundariamente o capitalismo e o sexismo. Nosso senso de moral é dado dentro da lógica capitalista. Acredito que por mais que se fale em homofobia, racismo, xenofobia, (…) a “pobrefobia” continuará a ser o maior dos preconceitos nas sociedades capitalistas. “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald faz um belo retrato. Por mais que um defenda uma ideologia qualquer, pode relevá-la (sem deixar de acreditar, é certo) em nome de interesses financeiros. Vide o Estado Nazista Alemão, o processo em que algumas empresas, lojas e shoppings se tornaram Gay Friendly e quantas outras cenas cotidianas…

Sendo o capital o regulador da moral e até décadas atrás, o homem o provedor da família, o machismo é um valor “natural”. Sabe, mulher também repara em bunda de homem. E eu não me importo que reparem na minha, não é como se eu fosse me enfiar numa burca. Mas querer um mínimo de respeito é pedir demais? Um mínimo de discrição afeta assim, de forma tão abrupta, a virilidade de alguns homens? São mesmo as mulheres que provocam, ou certos homens que não têm a mínima noção? (Essa colocação me lembra duas coisas: uma passagem de Persépolis e esse texto aqui)

Estou farta de ouvir “é porque é homem…” (não, não tem nada, absolutamente NADA a ver com instinto. A base instintiva humana é insignificante, largue a Playboy e vá ler algo que preste!); do “lirismo comedido” das caras fechadas e gestos mecânicos; da dicotomia maniqueísta santa/vagabunda; de pensar mil vezes mais que o necessário no que vou vestir; de ser culpada simplesmente por existir, sair na rua por… São tantas coisas juntas, junto de um pouco de sono… Espero que me tenha feito entender.

PS: Sono me deixa semi-analfabeta, as letrinhas se embaralham na minha frente… relevem qualquer coisa.

*”Boyfriend” é um adjetivo usado para roupas masculinizadas ou mais folgadinhas, como se fossem “emprestadas do armário do namorado”.


Neuroses necessárias

05 de dezembro de 2009

Conheça Aninha. E óbvio, esse nome é fictício. Ela nem tem cara de Aninha, mas para evitar futuras confusões pronominais, resolvi chamá-la assim.

Então, Aninha. Falávamos dela. Minha primeira impressão da menina foi irrelevante. Exceto quando falava: achava-a prolixa e tediosa. Não tinha grande paciência com a pobre.

Elogiei seu esmalte uma vez (era a primeira vez que a via usar uma cor discreta e, sem absolutamente nada contra cores berrantes – minha coleção conta uns 30 vidrinhos, nos tons mais inusitados -, a primeira vez que realmente achei que suas unhas favoreciam o look num todo). Ela ficou bem feliz, pareceu, e bastante espantada, sem dúvida. Não era incomum que divergisse das colocações dela ou interrompesse suas falas em discussões. (Não excluo a hipótese demasiadamente cientificista de uma batalha instintiva pelo único hetero do recinto… tá, voltando ao assunto:) Fiz o elogio e simpatizei com ela depois disso.

Quando eu simpatizo com alguém, é algo como… “Tá, eu aguento você, acho legalzinho, mas não chega muito perto de mim”. E foi me tornando mais tolerante com a Aninha que comecei a entendê-la.

Ela tem essa necessidade de se afirmar; uma coisa que tende à paranoia de ser reconhecida; urgência em deixar a menoridade… Ih, mil coisas dá pra dizer! E, sabe, agora que estou largando, mas há pouco tempo vivia nesse complexo de ser levada a sério, pensando (com alguma razão) que a maioria das pessoas que me cercam não deveriam estar ali. Eu não deveria estar.

O que não quer dizer que terei paciência com os “ataques da Aninha”; as citações seguidas de fonte bibliográfica completa, a rigidez formal e as desculpas sem fim que ela pensa me dever (é com carinho, mas: tolinha!) para atividades vulgares – eu sei o quanto você é culta, darling. Você cantar Cyndi Lauper no chuveiro não muda minha opinião sobre sua pessoa! – como se fosse heresia ler Foucault e gostar da Hello Kitty… Não é culpa dela. Compreendo perfeitamente, been there, done that! Sou impaciente mesmo, ponto.

De qualquer forma, é legal isso, da Aninha me considerar a ponto de zelar pela imagem que faço dela. (Não é só comigo, falo do meu ponto de vista.)

No momento, eu e Aninha estamos amiguinhas. One step at a time. Apoio bastante sua iniciativa de se emancipar (admiro também, o mundo precisa de mais gente afim de se “esclarecer”!), embora adimita: estou ansiosa pelo dia em que ela discutirá temas profundos com toda a propriedade que tem, no tom informal de quem participa duma roda de amigos entornando scotch, com cubanos à mão.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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