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SC #6

14 de julho de 2010

Indivíduo do sexo feminino; covinhas discretas no queixo e nas bochechas; um e sessenta e tantos (descontar o salto das botas); ausência de pigmentação na pele, exceto sob os olhos; cabelos chanel castanhos. Flagrada portando 1kg e 640 gramas de balas de goma – alegou serem para consumo próprio.

Imagens do dia: Crentes promovendo seu CD (15 contos – louvores inclusos) com performance musical em pleno calçadão; anúncios de oferta dos lojõespop em tempo real; um palhaço caminhando ao lado de engravatados; containers amarelo-queimado em contraste com o céu azul no horizonte. Viro na R. F…, depois à esquerda na rua da revistaria. R$ 1,50 depois…

JUDIARIA

Menina de dois
anos é internada com
suspeita da porca em
Balneário pág 9

…a vida provinciana.


SC #5

05 de julho de 2010

O despertador do celular tocou lá pelas oito & oito – ignorei. Não havia mais ninguém em casa. Enrolei mais um tanto na cama até tomar coragem de levantar.

Estava inspirada. Ando assistindo Fellini demais, só pode. Vontade de sair de saia de alfaiataria e salto alto.. lindo, nessas calçadas irregulares e esburacadas… Fui lá, pela cidade, desfilar meus mais cinco centímetros provisórios, Nabokov a tiracolo…

Parei na mesa da sala; papel e cérebro em mãos… Chega o menino pra me fazer companhia. Ele precisa ler alguma coisa pro colégio, pede sugestão – difícil… só “biscoito fino” na minha mala. Ele resolve se aventurar por Proust. Pense: nem pelos tem na cara, vai ler Proust! Talvez por ser o menor volume da pilha que trouxe na mala.

Desiste nas primeiras páginas. Lia alto pra mim, se atrapalhava com pontuações e nomes e abreviações franceses. Pego o Zaratustra, que é mais divertido. Termina o primeiro parágrafo, cansa… Melhor não forçar a barra, traumatiza o menino! Meu irmão é mesmo uma graça.


Velhinhas e gatos

01 de julho de 2010

Velhos, crianças… desconhecidos em geral, gosto muito à distância. Esses polos etários são recorrentes nas minhas descrições de momento, não sei se por gosto pessoal ou simplesmente os “adultos” que são muito chatos, mesmo irrelevantes, pra que se gaste tempo relatando minuciosamente a forma como compram o jornal do dia e um maço de cigarros.

Três casos de hoje:

Um: Na porta do caixa-eletrônico, esperando minha vez pra usar o Banco 24h. Sai a senhora, para de frente pra mim: Cobram taxa pra usar o 24-horas? Não sei… Nunca vi disso. Ora, que absurdo! Poisé, poisé! acabei de ver a informação na tela. Vou esperar vagar o caixa do … Ah, não era meu banco. Bom, bom. Honestamente, não sei o que me perturbou mais naquela conversa: A possibilidade de pagar as tais taxas ou a dentada da senhora maquiada por baton cobre.

Dois: Lá vou eu, pálida, me arrastando vagarosamente num vestidinho marrom até a farmácia. Resfriado maldito. Irritação inicial ao perceber que analgésicos e vitaminas C foram mudadas de lugar. Fui até o balcão, pedi pra mocinha. Muitas opções. (É difícil esse mundo capitalista!) Qual o mais barato? … O mais barato dos conhecidos? Certo… Paracetamol. A mesma coisa… Vou para o caixa, duas senhoras se achegam no balcão. Uma reclama com a outra qualquer coisa em volume inaudível. Responde: “o do posto é coisa de Po-bre!”. Vêm para caixa logo eu passo pela porta automática.

Três: Volto pra casa, me restabeleço minimamente, saio a passear com a Marrie. Faz tempo que não desço com a Marrie e dumas semanas pra cá um gato do prédio vizinho começou a ocupar nosso corredor. E o gato tava lá, né? No corredor que, tacitamente, é da Marrie. Eis que a gata, na coleira cor-de-rosa, começa a bufar pro outro felino. E sai correndo! E eu, carregada por ela. O outro se esconde deba,ixo do carro, pr’além do portão! Entra um vizinhozinho. A gata, ensandecida, se atraca na perna dele. Ah, Éris! Me desculpa, mesmo, mesmo, mesmo… ela NUNCA faz isso! Tudo bem… Gata solta da coleira, pra baixo do carro, pondo o adversário pra correr… “Tá namorando a gatinha” diz a senhora. Não, não tá. Nada contra, mas minha gata não é lésbica e o que tá acontecendo aqui é briga feia, por território! Nada de namoricos, minha senhora. “Ah, tá namorando!”… Ah, tá bom. Sorrio pra donna, cato a Marrie e, com muito custo, vamos escada acima.


Dia de Marte

27 de junho de 2010

“DIA DE MARTE, eu no Masp, cercada por Chagall.

Uma das coisas que mais me agradam nos espaços que reúnem arte são as senhoras de ar aristocrático que os frequentam. Há aqui uma num vestido verde, mules nude – bem próprio; lembrei-me de … comentando a cor – e o casaco nos ombros, marca das senhoras elegantes. Seus óculos estão na cabeça, eventualmente são – o telefone toca [infortunamente] – eventualmente eram baixados aos olhos pelas mãos delicadas.

Ela saiu do meu campo de visão e lembro agora do que pretendia falar. O Jesus-boiando de Chagall é um belo quadro.

Estou de frente para as pinturas de temática religiosa. Um homem acaba de fitar justo o que me chamou a atenção.

‘A Sarça Ardente’. Poderia escrever um filme, A Salsa Ardente: Um dançarino cubano, de nome Moisés, ilegal nos EUA, ganhando a vida num clube de salsa no subúrbio nova-iorquino.

(Já volto ao filme, um comentário urgente: jamais poria um rebento meu numa escolinha chamada ‘carinha suja’. Mas admiro que os pequenos – de carinhas limpas – são adoráveis. Tão calmos quanto pode uma criança nos seus [4 ou 5, difícil de ver o que escrevi, está rasurado] anos ser dentro de um museu, ao som de ópera. A auxiliar da professora é a típica moça bonitinha em jeans apertados…)

Voltando ao filme: (dois americanos em roupas idênticas; pai e filho? [apenas um comentário aleatório, mas daria uma boa cena...]) Moisés Moisés, na pista de dança, entusiasmado recebe visões de uma Cuba Libre: sua missão na vida é voltar a seu país e implantar um Comunismo.

Estudantes de artes (?) esboçam croquis; um dos mais malvestidos com a camisa do avesso. Teve sorte hoje? Gostaria de saber…

La Chasse aux Oiseaux me fez cantarolar a Habanera de Carmen.

(…)”

(Museu de Arte de São Paulo, tarde de 23 de março de 2010.)

PS: Entre colchetes tão comentários meus ou apenas transcrições destacadas porque, vamo combiná, né? “Infortunamente”? “Pobremente” (de espírito, faz muito sentido pr’alguém que entra num museu com o celular ligado) ou só um americanismo pobre mesmo?


Isabela

27 de junho de 2010

Isso foi em 2007 – 2008, talvez… Uns capítulos um pouco desconexos de uma historinha besta estavam esquecidos na gaveta da minha escrivaninha. Nessa época eu tinha uma escrivaninha com gavetas – duas gavetas! – que abriam com muito custo e muito jeitinho.

Não lembro onde estava, sei que voltava correndo pra casa. Sempre me atrapalhava com as chaves pra abrir a porta de vidro da entrada do prédio. A porta sempre dava problemas… Um ou outro, entrar em casa era sempre complicado.

Prostrada no alto dos degraus de granitos, ao lado do interfone: baixa, traços de quem foi fofinha, cabelo preto e liso, franja, olhos azuis, roupas sóbrias, vinte-e-tantos… Coincidência?

Precisei continuar a escrever sobre aquela moça, não tinha jeito.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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