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Ora, Homem!

15 de julho de 2010

Meu enteado, menino custoso! Cada dia me aparece com umas que nem sei de onde… Deu esses dias pra achar que era gente.

Estávamos a mãe e eu sentados na cozinha, esperando o que agora não me lembro terminar de assar – sei que o cheiro certamente era bom. Aí chega o guri, faz qualquer coisa de charme pra mulher, chama a atenção. Raio de moleque mimado. Isso eu sempre critiquei, ainda que pra mim mesmo. Não, não me atrevo travar briga dessa com a mulher…

Tá… como quem não quer nada, se achega da mãe, faz um agradinho, aguenta as mãos frias que acabaram de lavar a louça engastaiarem no cabelo que nunca vê um pente… “Precisa cuidar desse cabelo, meu filho. Passar condicionador, pentear de vez em quando…”

- É, é… – balançando os ombros – mas, mãe… eu sou homem.

Ora, homem! Nem pra rapaz pequeno!

A mulher me olha preocupada, pergunta se está tudo bem e eu desfaço minha cara de desaprovação – pra ela, de certo, o período não era nada demais. Pego os talheres na gaveta, ela a comida no forno e vamos todos ser uma família feliz na mesa da sala de jantar.


Cinco Toneladas de Linho (parte II)

12 de julho de 2010

Almoçamos, G. e eu, à beira da praia. Difícil conceber coisa mais anti-asséptica que comer de frente ao mar, não distinguir farinha do que é areia… Penso que seja uma preocupação demasiadamente banal e medíocre de minha parte e que não se aplique a mentes elevadas, ou mesmo àquelas bastante rebaixadas. Gosto de pensar em G. como exemplo do primeiro grupo, embora o outro caso seja mais plausível – não por ser mulher, simplesmente por se tratar de um humano adulto.

Então terminamos o pavoroso almoço. Sei que G. me lançava um olhar irritado por detrás dos óculos pretos, ao tempo que sorria como uma primeira-dama, do jeito que a mãe ensinou. Era o que gostava nela. O resto não era muito difícil de encontrar por aí.

Confesso: tão logo pisei a calçada em frente à livrariazinha de semi-novos e usados, abri o livro de minha … (de mortuis nil nisi bonum dicendum est; melhor não revelar sequer sua inicial). Avancei sobre as páginas com atenção e calma, qual fosse uma virgem. Capa; a tradicional folha branca com a medonha dedicatória da netinha para vovó C., redigida pelos pais da menina; o verso, com dados editoriais (19… um ano após nos separarmos…); a dedicatória…

Parei por um instante, no meio dos carros engarrafados. As buzinas ao meu redor idênticas àquelas de quando parti. Lembro de tê-las associado a palmas. Palmas, oras… Certamente poucos minutos após esse pensamento, já tinha me desiludido a esse respeito.

(Para X, sem nenhuma razão especial – deu saudades.)

E é por isso, caros, que não se deve mexer com os mortos.


Cinco Toneladas de Linho (parte I)

06 de julho de 2010

Era verão. Estava entediado, odeio Sol. G. insistira em passar a semana na praia, o que fazer? Ou o que não fazer por pernas longas e macias que carregavam todo um corpo macio?

Deixei-a na praia, fui andar pela cidade lotada de turistas por toda a parte, à exceção de um pequeno sebo mal-iluminado, com a caixa mais medonha que já vira em vida.

Entrei depressa, dispensei a ajuda daquele ser disforme e fui encontrar o que me ajudasse a sobreviver os cinco dias restantes no litoral.

Esbarrei num nome conhecido no alto da estante. Velha conhecida, por vezes boa amiga… Nunca me atrevi a ler nada dela. Puramente orgulho, pois já tínhamos nos afastado quando começou a escrever.

Morrera, fazia pouco tempo, num acidente de avião. Fui convidado para o enterro por seus pais, gostavam muito de mim… nunca retornei a ligação. Não penso que, depois de tudo o que lhe disse, ficaria contente com minha presença em seu velório.

Puxei com cuidado o livro da estante, para não terminar de descolar o tombo. Abri a capa – o preço era irrisório. Levei, junto com um Dostoiévski, por desencargo de consciência e sem planos reais de ler.

PS: Tenho a mania de começar contos em partes e nunca acabar… É um risco que vocês terão que correr.


A Mulher Mais Bonita da Cidade

15 de abril de 2010

Ainda não sei muito de Bukowski – sei que gosto. Duns tempos pra cá, comecei algumas conversas usando como exemplo o texto inicial de Crônica de um Amor Louco, mas essas não foram pra frente porque meus amigos nunca tinham lido o conto. Contar a historinha é coisa complicada – além do que, sou particularmente péssima nisso! A alternativa mais prática que adquirir o livro era ler na internet.

Acontece que nem todo mundo tem prática/saco de ler em inglês (nem acho mesmo que precise ter) e a língua das traduções que encontrei de “The Most Beautiful Woman in Town” não pode ser considerada português. Não tava fazendo muita coisa mesmo, então taí meu favor prestado a quem quer que interesse.

É a primeira tradução que faço na vida, não esperem muita coisa. Tentei ao máximo me controlar pra não sair mudando tudo que é vírgula e anáfora e… Foi bastante complicado! Espero não ter cometido nenhum erro gravíssimo. Já aviso que fiz com sono e revisei nas coxas (“que horror!” como diz meu professor de Estudos Literários). Leiam, leiam, leiam! Aí mais pra frente a gente conversa a respeito, certo?

Versão atualizada: A Mulher Mais Bonita da Cidade.

Pouca coisa foi mudada, basicamente a parte da “orelha-de-elefante” ficou mais clara, o Buk agradeceu um comentário da Cass como macho (tinha transcrito “obrigadA”), erros de digitação foram corrigidos e os verbos foram pro tempo certo. Desculpa qualquer coisa, Carol.


Meet Cute

14 de fevereiro de 2010

Uma coisa que as pessoas precisam entender é que, nem sempre, um meet-cute é um Meet-Cute.Talvez eu não tenha me feito entender muito bem com essa colocação, portanto ilustrarei com um exemplo pessoal:

Era meu primeiro dia no novo escritório e, como de propósito do destino de frustrar meus planos de causar boa impressão, todo o possível e mais um pouco aconteceram para que eu estivesse em cima da hora estipulada por meu novo empregador. Suando, ajustando a gravata e as mangas da camisa, entro no elevador, cuja porta está quase se fechando. No primeiro andar, abre-se a porta. Entra uma moça. Não era uma daquelas secretárias, com luzes no cabelo e silhuetas espetaculares e quilômetros de pernas enaltecidas por sapatos de salto. Era qualquer coisa muito mais singela. Uma moça pequena em todas as dimensões, olhinhos castanhos e tímidos, sardinhas discretas, um ar angelical em contraste com o traje executivo. Uma forma infantil de balançar levemente a pasta de couro em que guardava os documentos… Lá pelo terceiro andar, já conseguira computar cada milimetro de seu ser em meu cérebro, o elevador dá um solavanco. Ela arregala seus olhos, de medo. Eu a encaro com ternura, pergunto se está tudo bem. Ela acalma-se comigo, chegamos ao quinto andar sem mais problemas, ela me deseja um bom dia…

Poder-se-ia dizer que foi coisa do destino, que criou essa situação afim de juntar duas almas que pertencem uma à outra em nome da eternidade. Pensar-se-ia que depois do incidente, flashes com lembranças dela não sairiam mais de minha mente. Ora, não são tão constantes assim! Um homem há que entender que nada há de mais comum que um amor passante, que não passa de um encontro casual em que um frisson espontâneo pode ocorrer entre os dois, sem significar o início de uma grande e devastadora paixão.

Não cruzei mais com ela, por corredor algum. E devo dizer que, nesses poucos dias após o qual nos encontramos, tenha feito já a varredura de toda a companhia, sem encontrar mais que aquela pasta de couro e um copo perto desta, marcado por baton rosa, do qual tomei posse. Então é isso o que defendo, e alerto aos jovens iniciantes: nem toda mulher em que esbarrar marcará sua vida. Uma grande bobagem pensar assim.

(Um continho pra lembrar os velhos tempos. Happy Valentine’s Day!)

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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