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Neuroses necessárias

05 de dezembro de 2009

Conheça Aninha. E óbvio, esse nome é fictício. Ela nem tem cara de Aninha, mas para evitar futuras confusões pronominais, resolvi chamá-la assim.

Então, Aninha. Falávamos dela. Minha primeira impressão da menina foi irrelevante. Exceto quando falava: achava-a prolixa e tediosa. Não tinha grande paciência com a pobre.

Elogiei seu esmalte uma vez (era a primeira vez que a via usar uma cor discreta e, sem absolutamente nada contra cores berrantes – minha coleção conta uns 30 vidrinhos, nos tons mais inusitados -, a primeira vez que realmente achei que suas unhas favoreciam o look num todo). Ela ficou bem feliz, pareceu, e bastante espantada, sem dúvida. Não era incomum que divergisse das colocações dela ou interrompesse suas falas em discussões. (Não excluo a hipótese demasiadamente cientificista de uma batalha instintiva pelo único hetero do recinto… tá, voltando ao assunto:) Fiz o elogio e simpatizei com ela depois disso.

Quando eu simpatizo com alguém, é algo como… “Tá, eu aguento você, acho legalzinho, mas não chega muito perto de mim”. E foi me tornando mais tolerante com a Aninha que comecei a entendê-la.

Ela tem essa necessidade de se afirmar; uma coisa que tende à paranoia de ser reconhecida; urgência em deixar a menoridade… Ih, mil coisas dá pra dizer! E, sabe, agora que estou largando, mas há pouco tempo vivia nesse complexo de ser levada a sério, pensando (com alguma razão) que a maioria das pessoas que me cercam não deveriam estar ali. Eu não deveria estar.

O que não quer dizer que terei paciência com os “ataques da Aninha”; as citações seguidas de fonte bibliográfica completa, a rigidez formal e as desculpas sem fim que ela pensa me dever (é com carinho, mas: tolinha!) para atividades vulgares – eu sei o quanto você é culta, darling. Você cantar Cyndi Lauper no chuveiro não muda minha opinião sobre sua pessoa! – como se fosse heresia ler Foucault e gostar da Hello Kitty… Não é culpa dela. Compreendo perfeitamente, been there, done that! Sou impaciente mesmo, ponto.

De qualquer forma, é legal isso, da Aninha me considerar a ponto de zelar pela imagem que faço dela. (Não é só comigo, falo do meu ponto de vista.)

No momento, eu e Aninha estamos amiguinhas. One step at a time. Apoio bastante sua iniciativa de se emancipar (admiro também, o mundo precisa de mais gente afim de se “esclarecer”!), embora adimita: estou ansiosa pelo dia em que ela discutirá temas profundos com toda a propriedade que tem, no tom informal de quem participa duma roda de amigos entornando scotch, com cubanos à mão.


Aquela Garota

13 de abril de 2009

Aquela garota estava apaixonada. E qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade poderia afirmar. Era perceptível pela forma como suas pupilas dilataram e sua musculatura contraiu de nervosismo ao vê-lo chegar para encontrá-la na frente do cinema; balançando os cabelos encharcados pela chuva que o pegou desprevenido no caminho entre o ponto de ônibus e o shopping e abrindo os braços para abraçar a amiga. A melhor amiga.

Ela deixou-se envolver pelo abraço e pelo cheiro de perfume misturado ao amaciante que a mãe dele punha nas roupas, um cheiro que qualquer outro menino poderia ter – e que muitos provavelmente tinham – mas que se tornava especial por vir da gola da camiseta dele.

Foi breve. Ele logo a soltou, pedindo desculpas por a ter molhado. Não tinha problema, claro que não tinha. Abriu o sorriso condescendente de que ele tanto gostava, ele se deu por satisfeito.

Mudou de assunto; perguntou o que iriam assistir. Sugeriu o filme de ação, por mais que quisesse ver a comédia romântica. Apesar de apaixonada, não era imbecil. Talvez fosse um pouco tola, mas a tolice não é, afinal, um mal exclusivo dos apaixonados. Enfim, não pretendia abusar do menino. Já não bastasse a namorada!

Aliás, e isso era muito estranho ao seu ver, tinha bastante simpatia pela namorada dele. Talvez, a razão fosse o sentimento de que não disputavam o mesmo garoto. Como ela amava o amigo, também o amigo amava a namorada e ela respeitava isso.

Suas mãos tremeram quando ele lhe passou o saco de pipocas e quase as derramou. Não sabia como demonstrar, tampouco escondia as manifestações dos seus sentimentos. Sabia, de ouvir falar, que ele a achava legal. Era só?

Desejava profundamente que ele a amasse também. Não fazia exigências, desde que fosse sincero. Podia suportar a dor de um coração partido, mas não por ele. De todos os caras por quem fora apaixonada até esse ponto de sua breve existência, ele, a paixão mais profunda, deveria permanecer imaculado pela cafajestice. E se acaso ele nunca a amasse, ela simplesmente morreria. Um dia, de preferência em um futuro distante e sem sentir dor, como todo mundo morre. Por enquanto, em um espaço de tempo que não tinha meios para definir precisamente, apenas conhecê-lo já a deixava feliz.


Há sempre um chinelo velho…

29 de março de 2009

“É que assim… ” ele começou a falar, sem muita convicção.

Ela deu um longo suspiro e baixou seu garfo. Era demais esperar que ele tivesse senso suficiente para esperar que ela terminasse seu prato antes de tocar em um assunto tão desagradável? Sim, era. Ele nunca tivera o mínimo tato, ela nunca se iludira a respeito e agora, chegado o fim do relacionamento dos dois não poderia ser pior hora para tanto.

“É, eu sei…”

Resolveu se precipitar, acabar com aquela bobagem o mais rápido possível. Já não aguentava mais a forma como ele a tratava havia dois meses, como se fossem não mais que amigos, sequer bons amigos, nem um pouco coloridos.

“Pois é… Estranho isso…”

“Realmente…” louco isso como alguém completamente indiferente para você de uma hora para outra torna-se objeto da sua mais profunda afeição e, de repente, puff! o príncipe sofre um infarte fulminante e você acorda ao lado de um sapo.

No caso dela não era inteiramente verdade. Ele ainda era um príncipe para ela. Mas não podia continuar ao lado de um cara que não a via como mais que uma abóbora. Não, ela era Cinderela e haviam milhões de sapatinhos de cristal por aí, para que se prender a um “chinelo velho”? Mesmo assim…

“…Sabe…”

Balançou a cabeça; na-na-ni-na-não. Ela não sabia, nem queria saber. Bem, queria sim. Mas só um pouquinho! Não desesperadamente, como ele devia estar pensando. Claro que não!

“…Gosto muito de você, quero continuar sendo seu amigo, seu melhor amigo” os dois falaram em uníssono, ele sério, a meia voz, ela debochada, apenas em sua cabeça.

Que mania essa que os namorados têm de se sentir culpados em terminar. Como se dizer “vamos ser amigos” mudasse totalmente o fato do outro estar levando um belo pé na bunda, como se o mundo fosse se iluminar de cor-de-rosa e os dois fossem sair por aí de mãos dadas pulando alegremente e entoando “acabei de dar/levar um pé na bunda e ela é/eu sou otária para achar que seremos amiguinhos para sempre”

Já tinha muitos amigos: os gays, os feios, as fofoqueiras, os melhores amigos, os amigos coloridos… Ela que não seria outra apaixonada debilóide. Por mais que seu amor-próprio tivesse sido atirado no lixo muito tempo atrás, ainda conservava alguma arrogância – uma qualidade péssima, de acordo com os valores morais estabelecidos pela sociedade em que ela crescera, mas melhor que nada.

“Não, muito obrigada.”

Primeiro ele ficou desorientado com a resposta e, logo depois, indignado com a recusa. Quando retomou o controle sobre si, proferiu uma dúzia de palavrões e reclamações. Falou tudo o que estivera errado, a forma como a má educação dela o envergonhava na frente dos amigos, como ela se vestia mal, como fazia bagunça, como roncava como um homem e…

Ela balançou a cabeça novamente, se despediu quando ele não achou mais palavras e foi embora. Sem dissimulações, sem eufemismos, sem fazer do passado um tempo mítico e perfeito. Melhor assim. Melhor para os dois.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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