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Que dia é hoje?

08 de março de 2010

Juro pra vocês, trocar minha primeira lâmpada sozinha foi bastante emocionante. Deu uma sensação de auto-suficiência, uma coisa tão boa… De repente era Louise Michel comandando minha própria revolução, dentro de meu quarto instaurava-se uma Comuna. Aí eu desci cuidadosamente da cadeira do computador e voltei à realidade.

Uma coisa que não suporto em datas como Dia Internacional da Mulher, Dia da Consciência Negra, Dia das Mães, dia do diabo a quatro… são as milhões de mensagens toscas que invadem as caixas de email, com que nos bombardeiam nas sinaleiras e quadros de aviso do condomínio. Fico com as flores; os pensamentos ilustrados em power point e os poemas amadores, dispenso. Todos. Não leio um sequer. É ver .gif ou letrinhas coloridas que fujo num instante.

Tenho verdadeiro PAVOR de cliché! Ok, mentira. Tenho não. Eu gosto do cliché, gosto mesmo. Mas não assim na forma bruta e vulgar. Ele precisa ser trabalhado, limado – trabalho deveras parnasiano, no entanto, o resultado aconselhado é qualquer coisa menos isso!

Voltando ao que eu queria dizer quando comecei esse texto, foda-se que a mulher tem mais inteligência emocional ou sei-lá-que-raios! Foda-se o lirismo descomedido dos cartões comerciais. Foda-se também a repulsa à data. É só mais um dia, nem feriado é! Se quer um homem homenagear suas mulheres (não no sentido poligâmico, refiro-me a mãe, vós, amigas, tias, sobrinhas, namorada…), comprar rosas, dizer parabéns, ora! Deixe o menino. É uma gentileza, não um atestado de virilidade. Aqueles que precisam tão desesperadamente demonstrar sua pretensa superioridade sexual não gastam seu dinheiro com outra coisa que não academias, sons automotivos e todo a sorte de parafernalhas para exibir-se. Seu narcisismo não permitiria.

Nesse contexto, após livrar a alma daqueles que não fazem por mal perpetuar a existência desse dia tão inútil, retomo o nome citado no primeiro parágrafo: Admiro profundamente a mulher que foi Clémence, ela é um dos meus “exemplos a ser seguido”. No entanto, nossas lutas não são as mesmas.

Não vejo hoje cabimento no feminismo. A briguinha maniqueísta entre os sexismos não passa disso: uma disputa por adeptos, em detrimento da luta por direitos civis necessários e urgentes.

Este e qualquer outro Dia X, assim como os 364 restantes no calendário não-bissextos, ao invés de servir de palco para discursos antigos ou listas quilométricas enumerando vantagens femininas (“prioridade em botes salva-vidas; orgasmos múltiplos; a mulher do presidente é primeira dama, enquanto o marido da presidente é inominado…” tenha dó!), deveria sediar debates sobre a circuncisão bárbara de meninas (praticada e perpetuada pelas próprias mulheres!) em certas culturas, majoritariamente na África e Ásia; sobre a legalização do aborto no Brasil… E não porque são mulheres; porque são o “sexo frágil”, devem ser protegidas. Porque são seres humanos!

O mesmo deve ser feito em relação à união civil de pessoas do mesmo sexo, à adoção de crianças por esses casais; rediscutir o sistema de cotas, reavaliar e investir na educação básica (onde, como, quanto? Já!), ampliar o acesso à universidade…

Nada me impede de ganhar flores qualquer outro dia. Por que impediria de pensar em políticas públicas também? Hã?

Pra terminar de forma mais agradável, deixo uma lembrancinha aos homens; uma tradução livre em prosa da primeira estrofe de Cows in Art Class, poema de Charles Bukowski, dos meus favoritos:

Bom tempo é como uma boa mulher: nem sempre acontece. E quando acontece, nem sempre dura. Homens são mais estáveis: se ele for mal, há uma boa chance de que o continue sendo; se for bom, talvez permaneça assim. Mas as mulheres são mudadas pela idade, pelas dietas, diálogo, sexo, crianças, pela Lua, pela ausência ou presença do Sol ou bons momentos. Uma mulher deve ser curada, para sua sobrevivência, com amor, ao passo que um homem torna-se mais forte quando odiado.


Aula de Linguística

02 de março de 2010

Ex. 1)

A Maria se admira
Se admira admirando-se
Da Maria que não é
Ela, e que até um
Menino na favela
Sintaticamente sabe
Quem é.

Ex. 2)

O João, diz o exemplo,
Não acertou 4 questões
(Na prova). Ambiguidade,
Diz a professora,
Mas de mais de 3 acertos
Conhecendo o perfil desses joões,
Excluo qualquer possibilidade
Outra sugerida pela doutora.

Ex. 3)

Pegou chuva, Carolina
A pé – “yi”:
Na calça da menina
Há barro na barra, eu vi.

(FFLCH, manhã de 1o. de março de 2010)

Sem exageros, é fazer poemas a(l/u)tamente amadores ou relembrar cenas de My Fair Lady. Há tempo suficiente para ambos.


Dia de quinta

25 de fevereiro de 2010

É nesses dias cinzentos em que a chuva frustra nossos planos que a alienação monetária pueril nos faz felizes. Nada como voltar para casa e deixar-se preguiçosamente a pensar, cultivar o ócio enquanto se delicia uma semana de almoço no bandeijão em forma de 100g de chocolate, que os malditos trópicos trataram de amolecer. Paciência. É comer e tratar da sesta.


Carnaval, desengano.

13 de fevereiro de 2010

Deixei a dor em casa me esperando e vim me isolar do mundo, em casa de vovô.

Honestamente, não vejo nada mais que um feriado comum quando penso em carnaval. Queria saber o que tinha essa festa a ponto de provocar tamanha melancolia com a chegada da quarta-feira de cinzas.

Ano que vem eu, quem sabe, me planeje pra fazer algo especial pra esse feriado… Talvez role algum post em homenagem ao Valentine’s Day amanhã. Não garanto. No mais, quem ainda não viu, aproveite o feriado pra ler o Cotidiano No. 3!!! Inté!

PS: “Esse moreno me deixou sonhando…”


Modas de Homem e de Mulheres

12 de fevereiro de 2010

Comecei a ler Modos de Homem & Modas de Mulher recentemente, ainda estou na página 39. Particularmente, não gosto da escrita do Freyre e discordo de muitas das ideias dele, tendem a ser restritivas, ainda que a proposta seja de uma análise geral (Casa Grande & Senzala chegou a me dar a sensação de ser uma estrangeira no meu próprio país!). No entanto, alguns trechos são muito interessantes.

No capítulo “Nova Concepção de Feminilidade”, o autor desvincula a moda da vontade arbitrária do criador e a caracteriza como elemento de expressão de mudanças sociais/comportamentais/etc. Desde que me interesso pelo tema, defendo a moda como uma das mais importantes formas artísticas da humanidade. A moda é a forma estética que os simbolistas sempre desejaram alcançar, a qual o indíviduo é capaz de sentir e apropriar-se dela como parte de seu próprio corpo, seu próprio ser. Cada peça é capaz de tornar um diferente lírico o seu Eu. Moda, meus queridos, é arte. Tendência e estilo não têm nada a ver com isso.

Fiquei deveras triste ao saber do suicídio de McQueen. Alexander McQueen não apenas foi um grande estilista, mas um dos maiores artistas da contemporaneidade. E não digo que ele era criativo por usar alegorias inusitadas em suas criações. Ele foi um gênio por agregar esses elementos figurativos ao conhecimento do corpo feminino. Soube ousar na caracterização sem negligenciar a feminilidade, dadas as silhuetas impecáveis de seus modelos. Cada uma de suas roupas era como um quadro meticulasamente pensado e executado, em confluência com quem as vestia, não um emaranhado de panos cobrindo um cabide humano.

Creio que grande parte das pessoas discorde de minha visão e diga que a indústria da moda é cruel, corrupta, tem pacto com o demo e por aí em diante. Sinceramente, não vejo o que o vestido e o trecho de desfile abaixo têm a perder pra um belo soneto ou quadro num museu. São igualmente válidos, igualmente belos.

Goddess Save McQueen.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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