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Pra não dizer…

04 de julho de 2010

Diz muito bem uma conhecida minha: A língua é o chicote da bunda! Acabou que acompanhei o último jogo da Seleção na copa. Fiquei minimamente sentida com a derrota; mais com a falta de emoção nos comentários gerais.

Tava fazendo minha mala uns dias atrás. Começando a arrumá-la, só. Peguei nas mãos um livrinho verde-e-amarelo com crônicas do sr. Nelson Rodrigues, que acabou por me acompanhar naquela noite fria e triste. Com isso, dei pra gostar de futebol.

Acho que a dificuldade encontrada por mim e por tantos em compartilhar da catarse nacional, de ver e sentir aquela esfera ser tocada por tantos pés até enfim alcançar a rede do gol, está numa coisa que o Seu Nelson sempre reclama: Bilac morreu e não temos um Homero ou um Dante pra poetizar o que é prosaico em essência.

Abandonei a indiferença ao esporte. E isso não quer dizer que conheça e adore. Mas passei a compreender melhor a dita paixão nacional. O futebol é parte indissociável da vida e o mundo está contido numa partida de futebol ou, no mínimo, Nelson Rodrigues é muito bom pra convencer alguém disso.

Recomendo A Pátria em Chuteiras a qualquer um, ainda e principalmente àqueles que não gostam de futebol, que não entendem e que nem sentem falta. Leitura extraordinária e, ao contrário do que possa parecer pelo título e pela temática, universal.


Balanço do último bimestre de 2009

04 de janeiro de 2010

Nem sei o que me levou tanto tempo para fazer essa lista, mas vá lá, vou tentar lembrar a sequência cronológica (e a relação completa!) e um ou outro detalhe interessante. Não vou incluir os que pertencem à lista de leitura obrigatória da Fuvest; pretendo fazer um (ou uma série de) post(s) específico(s) para estes.

  • O Suplício do Papai Noel (Claude Lévi-Strauss)

    Status: Terminado

    Comentário: O primeiro Lévi-Strauss a gente nunca esquece. É curtíssimo (umas cinquenta páginas) e bem conciso, mas ao mesmo tempo, inteligível. Vale a pena e, como já comentei, a edição comemorativa da Cosac Naify é maravilhosamente linda! Item essencial em qualquer estante que se preze! Hahaha

  • Persepolis (Marjane Satrapi)

    Status: Terminado

    Comentário: Não sou grande fã de quadrinhos e, não fosse pela indicação do Bender, provavelmente nunca teria lido. Gostei bastante da forma como a autora mistura arte plástica e literária, a forma como ela narra a revolução islâmica no Irã de forma pessoal, conferindo uma pronfudidade maior à obra… Lembra bastante MAUS, do Art Spiegelman; ambos são incríveis! Levei uns dois dias pra terminar , mas quem não quiser encarar o papel, pode ver a versão cinematográfica. Me disseram que é boa.

  • O Discurso e a Cidade (Antonio Candido)

    Status: Três ensaios já lidos

    Comentário: Nossa, como eu custei a encontrar esse livro! No final das contas, acabei ganhando do Tiago. Antonio é brilhante e fofinho (a foto na orelha do livro lembra o mestre tartaruga de Kung Fu Panda hahaha). Cada nova linha me dá mais vontade de viver pra estudar teoria literária! Não indicaria pra quem não se interessa pela área. Não é um livrinho bonitinho e engraçadinho, não tem figura e, sem um mínimo de conhecimento prévio e estudo posterior, vai entender lhufas, meu bem.

  • O Grande Gatsby (F. S. Fitzgerald)

    Status: Terminado

    Comentário: Outro livro que vai em um dia sob o sol, dois se muito! Tem uma pegada bem “euamericana”, não dá pra negar. Difere bastante do Poe nesse aspecto (pelo menos pra mim, ele passa por britânico numa boa!). O que me atrai particularmente no enredo é a crítica social sutil; narrar o comportamento da elite ao invés de contar estorinhas de miseráveis que são mais líricas que críticas. Gostei bastante, to querendo ler mais coisas dele. Se conhecerem, sugiram alguma coisa!

  • O Visconde Partido ao Meio (Italo Calvino)

    Status: Terminado

    Comentário: Cem páginas com um enredo não muito elaborado, bem blasé (velha dicotomia bondade x maldade, com um desfecho menos cristão e mais zen). Como ultimamente não tenho me importado muito com conteúdo, digo que vale bastante a pena pela forma. A escrita de Calvino é muito boa! Bastante agradável para um dia despreocupado de verão.

  • Cien Años de Soledad (Gabriel García Márquez)

    Status: Umas dez páginas lidas

    Comentário: Ah, depois de ano sem prática, ler em espanhol tá muito complicado. Quem sabe semestre que vem?

  • Northanger Abbey (Jane Austen)

    Status: Ainda lendo, no momento no capítulo onze

    Comentário: Adoro, adoro, adoro tudo vindo das mãos da Austen. Aliás, o projeto em que estou envolvida no momento tem muito da influência dela, mas por enquanto é segredinho.

E vocês, o que me contam de bom até agora? O que andaram lendo no ano que passou, o que pretendem ler esse ano… Deixem comentários!


Sobre a narração em Northanger Abbey

26 de dezembro de 2009

Do pouco que li até o presente momento (estou no capítulo 5 enquanto escrevo), percebo que com este livro – mais que com Orgulho e Preconceito, que já havia lido anteriormente – Jane antecipa temáticas e alguns aspectos estéticos que só se tornariam comuns meio século depois (embora continue defendendo que seja em parte desproposital, como Manoel Antônio de Almeida em Memórias de um Sargento de Milícias).

Algo muito interessante, e que não aparece de forma tão evidente em O&P (escrito e publicado antes de NA), é o emprego da função fática. Não é tão bem executada por ela quanto por Machado (e por quem seria?), mas o efeito é interessante. Ainda sobre o narrador – 3ª pessoa, onisciente -, possui um humor ácido, porém bastante sutil, e um pouco de desprezo em seu tom; típico da mulher aristocrata que narra as peripécias dos médio-classistas e nouveaux riches.


O Suplício do Papai Noel

23 de dezembro de 2009

Para aqueles que buscam um bom presente de natal (de última hora, diga-se de passagem…), eu recomendo profundamente o livro de Claude Lévi-Strauss, que dá nome a esse post. Motivado pela execução pública dos “bons velhinhos”, promovida pela Igreja Católica francesa na década de 50 do século passado, o ensaio de Lévi-Strauss aborda as origens histórico-culturais da figura do Papai Noel e sua importância para a sociedade contemporânea.

Não estou com o livro por perto para poder citar um trecho (sequer boa-vontade para procurar o que quer que seja na internet; simplesmente não suportaria aumentar o tempo de contato com um computador sem sistema operacional, espero que me entendam), mas gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito: O espírito natalino é mais que uma instituição, um reflexo da moral cristã ou um sentimento de culpa à lá “Um Conto de Natal”, do Dickens. Faz parte da identidade humana.

Comemore esse natal, independentemente de suas crenças. Lembre aos outros o quanto gosta deles e faça coisas boas não porque é natal, mas porque é preciso começar um dia, então que tal hoje mesmo? Presenteio os vivos – com um gesto que seja – já que não há mais nada por fazer pelos mortos. Esse é o sentido das festas de fim de ano: Celebrar os que restaram e perpetuar a história dos que já foram.

Escreverei mais assim que possível! Boas Festas! Ah, e leiam esse ensaio do Lévi-Strauss, vale muito a pena.


Orgulho e Preconceito

06 de novembro de 2009

Nunca tive uma impressão muito boa de Jane Austen. Principalmente após assistir The Jane Austen Book Club, era impossível pra mim pensar na autora sem associá-la àqueles livrinhos Românticos blasé, os culpados pelas cabecinhas tolas e delirantes de tantas mulheres – e aqui me incluo, sim, mas também me implico! Então, um belo dia, eu entro na Saraiva pra cheirar livros depois do almoço e paro frente àquela coisinha redonda de pequenas ‘instantes’ (parafraseando o Peterson) da Martin Claret e ô editora pra ter pocket books com capa feia, nunca vi! Nem sei de onde, saí da livraria levando não apenas ‘Orgulho e Preconceito’, como ‘O Corcunda de Notre Dame’. O Victor Hugo até dá pra entender a atração, mesmo com a capa tosquinha. Agora recapitulando os fatos, lembrei que já havia assistido ao filme com a Keira, daí querer a versão original da história.

Enfim, voltando ao ponto principal: Comecei a ler O Corcunda, porém tive que parar por necessidade (leia-se: obras que deveriam ser lidas para a aula de Literatura) e nunca mais retomei. Aí nas férias, carreguei minha mala – já nada pequena – de livros e toquei ler debaixo do Sol, pra me distrair enquanto me esforçava pra deixar minha cor-de-azulejo-de-banheiro pra trás. Não é que o livro era bom? Muito melhor que o filme, aliás! Os dois primeiros parágrafos:

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna deve estar necessitado de uma esposa.

Por muito pouco que sejam conhecidos os sentimentos ou o modo de pensar de tal homem ao entrar pela primeira vez em uma localidade, essa verdade encontra-se de tal modo enraizada no espírito das famílias vizinhas que ele é considerado propriedade legítima de uma de suas filhas.

Não são encantadores?

Claro que tem muito aí de uma mulher elaborando suas exasperações frustradas pelas personagens, mas isso é bem comum. Apesar de considerada a primeira romancista Moderna inglesa, sua obra se enquadra claramente na temática e estética românticas. Talvez, pelo fato dela retratar situações de seu cotidiano, haja um quê de ‘realidade’ ou de ‘natural’ no texto, embora nada que possa ser tido com Realista. Outra coisa interessante: por ser ela mesma mulher, suas personagens femininas são muito mais verossímeis que dos escritores homens. É um ponto que aponta para a Escola seguinte – eu penso, só por sabermos o que sucedeu – portanto não deve, na minha opinião, ser visto como um prenúncio daquela. (Bem, acho que ensaiei teoria literária o suficiente…)

Resumo da ópera, indico a leitura. É um livro muito prazeroso – apesar dos clássicos diálogos britânicos hiperpolidos -, principalmente na capa do Ruben Toledo (alguém me dá de Natal? Hihihi), sem contar que o Mr. Darcy… Ah! Completamente apaixonante!

PS: Básico que levei quase um ano pra escrever a respeito do livro!

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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