(Trabalho de Filosofia de 31/08/2009)
A infância foi uma invenção. E aquela como a conhecemos, o vulto disforme e moribundo da ideia original.
Os Beatles ainda eram anônimos e a Sputnik, jovem, quando a (imagem de) criança, qual era projetada desde a Revolução Francesa, começou a desbotar. O advento de tecnologias como a televisão e a internet facilitou a difusão de informação, tanto para os adultos quanto para os jovens, fazendo com que a divisão entre esses dois “mundos” – de diferentes faixas etárias – se tornasse cada vez mais tênue.
Avanço ou retrocesso? Fato, não é exclusivo da pós-modernidade crianças e adultos compartilharem um momento indistinto de aprendizado. Também na Idade Média essa confluência entre jovens e velhos acontecia, embora nas igrejas – bem como nas (poucas) salas de aula* -, não nas salas de TV.
Foi após a invenção da Imprensa por Gutemberg que se fez necessária a separação das gerações no ensino, sobretudo em seguida à Reforma, posto que os fieis protestantes deveriam ser capazes de ler a Bíblia. Mas apenas com as revoluções burguesas deu-se a popularização das escolas.
O primeiro baque na infância veio no mesmo século, devido à miséria e demanda de mão-de-obra da Revolução Industrial. Ao rumarem para as fábricas, as crianças seguiam igualmente para o mundo dos adultos. Porém, logo foram criadas as legislações trabalhistas e, na segunda metade do século XIX, a infância já estava novamente institucionalizada.
A destruição desse conceito foi gradual. A democratização da democracia – muito bem observada por Hannah Arendt nos EUA – empurrou os pequenos para a polis desprovidos de tutoria. Cabe agora ao aluno decidir o que aprende e o professor já não passa de um “atalho no teclado”, pois sendo de sua vontade, a criança aprende por si só.
É também mais prático para os pais, que aproveitam o tempo com seus rebentos a divertir-se e mimá-los, fazendo-se amigos dos filhos na ânsia narcísica de voltarem a ser jovens. Delegam às instituições de ensino, então, toda a responsabilidade da criação.
Escola não educa criança! É apenas o ambiante onde esta é, pela primeira vez, apresentada ao mundo público. Esse processo tampouco é solitário, e submeter-se à autoridade de um tutor é fundamental nesse momento em que ela deve preparar-se para; embora ainda não; responder por suas escolhas. Estas ainda precisam ser tomadas por um maior.
A infância não morreu. Encontra-se em estado de coma, no leito de um hospital público de país subdesenvolvido qualquer. E, dessa vez, não é sobre a “geração futura” que pesa o dever de acordá-la. Não! São aqueles prestes a partir que devem tomar a missão para si e, finalmente, responsabilizar-se pelo mundo a legar.
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*Nota do professor ao texto original.

