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Ao Teu com o Diabo (parte II)

13 de julho de 2009

Leia a parte I aqui.

Engraçado que sempre considerei os agnósticos “ateus fracos” e acreditei piamente que o ceticismo radical fosse muito mais “seguro”, devido seu caráter estável-estático.

Quem sabe seja exatamente nessa estabilidade, na solidez ideológica, que esteja o “perigo”. Confesso não ser o maior entendedor das questões físicas, mas não é verdade que as edificações precisam de um certo balanço pra que não sejam derrubadas pelo vento ou tremores de terra? Por que seria tão diferente conosco, humanos, a ponto de considerarmos os flexíveis fracos e jogarmos-los no balaio dos indecisos e irrelevantes?

Sei que nesse meio tempo, em que me entretinha com tais questões, minha mala deu algumas voltas na esteira (vi de relance um volume amarelo passando e descarto a possibilidade de outra pessoa no mesmo voo ter uma mala de viagem amarela).

Não digo que me conformei, apenas que mais uma vez as futilidades do mundo externo acabaram suprimindo minha abstração.

Retirei por fim a tal mala amarela da esteira e rumei para o saguão. Um rapaz qualquer segurava preguiçosamente uma plaquinha precária, improvisada de um pedaço de papelão em que meu nome fora escrito com caligrafia primária, um “T” a menos, um “C” a mais e alguns respingos de gordura que eu não cheguei a ver, mas pude perfeitamente imaginar.

Bem, não havia muito que pudesse ser feito. Cheguei-me a ele, impaciente por ser levado de uma vez ao hotel, torcendo para que fosse daqueles condutores silenciosos e rápidos. Nenhum-nem outro; desatou a falar comigo.

Primeiramente, disse que não sabia quem eu era. Óbvio que não; não sou o tipo de pesquisador que recorre à mídia de massas. Tenho alguma dignidade – arrogância academicista, como queira. Então…

”Comecei a pesquisar. Não é todo dia que… Na verdade é mais comum do que você deve imaginar, mas enfim. Tinha que saber alguma coisa sobre quem eu estava levando. E devo dizer que foi um ótimo negócio. Um pesquisador tão importante quanto você… O que paguei por sua alma foi uma niñeria!”

Talvez porque nesse momento um carro nos fechou no cruzamento e começaram a soar buzinas de todos os lados, acabei alucinando as últimas sentenças dele. Fiquei meio assim de pedir que repetisse, pareceu um pouco deseducado de minha parte. Mi culpa; não prestava mesmo muita atenção que o assunto dele não me era interessante.

Só para não dizer que pouco me importava, assim que deixamos o furdûncio do cruzamento tomei os cuidados de perguntar seu nome.


Um Haikai Meio Bobo

06 de julho de 2009

Ficou sem saber o que era mais estúpido:
se o telefone que não tocava
ou aquele que teimava esperar.


Experimento #1 – Poesia em Prosa

02 de julho de 2009

Prólogo

E de repente, todos os carros eram azuis e todos os dias, domingos ensolarados. Foi quando ela se percebeu irremediável, irredutivelmente, apaixonada.

Sucré

(Atenção! Não recomendado para diabéticos)

Nem todos diziam – que muitos eram educados o suficiente, ou demasiadamente pudicos para tal – mas os que faziam; porque, menina! Que você é tão jovem e linda, tem toda uma vida pela frente ainda…

E ela ouvia, e concordava mas… Daí a interpretar que ele fosse um “peso” sobre ela (até sim; só literalmente. Nada que um pouquinho de exercício e menos chocolate; nada tão importante), que merecia “coisa melhor”… Ora! Se ela podia ter qualquer homem, cadê, que o seu “qualquer” não lhe servia?

E não pense que seu amor, nutrido por quem era, era qualquer coisa perto de falta de opção! Muitíssimo ao contrário: escolha plenamente democrática, voto direto e seguramente sóbrio de cada milímetro de tecido corpóreo contido em seu pouco mais de metro-e-meio.

Bem verdade, ele tinha lá seu pé atrás. Já tinha desacreditado um pouco desta vida e só: ia levando, esperando sua reencarnação. Então aparece essa tal dessa moça e, que estranho! Tanto ele se deixar ser levado quanto ela mesma puxar corda! Pode-se dizer que fosse um dos que endossavam o coro de “coisa melhor”. Não pra ela (exatamente)… Para si; que tanto podia ser coisa melhor.

É certeza: Essas coisas, para ela, tanto faziam. Pois se era mesmo isso & tudo aquilo & mais um monte, porque não ser logo assim pelos dois? Se faltava tanto a ele, fazer o quê? Nem de longe que pudesse completá-lo! Mas bem podia e, ah!, isso fazia: comple(men)tá-lo. Uma sutileza, nem perto de um detalhe!

Paciência, que as pessoas falam mesmo. Que a vida própria e mesmo muito chata e o bom é contar do alheio! Assim os dois, sempre dizendo do povo e o povo, quando em vez; em meio de outros tantos-tantos casos muito mais ou tanto menos interessantes; comentando também dos dois.

O que interessa é que os carros azuis ainda eram maioria, que o verão instaurara-se perpetuamente em julho (no hemisfério Sul) e ela permanecia inalteradamente, conscientemente, felizmente…

Nota da Autora: Coisa meio Quintana numa noite de quinta…

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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