Leia a parte I aqui.
Engraçado que sempre considerei os agnósticos “ateus fracos” e acreditei piamente que o ceticismo radical fosse muito mais “seguro”, devido seu caráter estável-estático.
Quem sabe seja exatamente nessa estabilidade, na solidez ideológica, que esteja o “perigo”. Confesso não ser o maior entendedor das questões físicas, mas não é verdade que as edificações precisam de um certo balanço pra que não sejam derrubadas pelo vento ou tremores de terra? Por que seria tão diferente conosco, humanos, a ponto de considerarmos os flexíveis fracos e jogarmos-los no balaio dos indecisos e irrelevantes?
Sei que nesse meio tempo, em que me entretinha com tais questões, minha mala deu algumas voltas na esteira (vi de relance um volume amarelo passando e descarto a possibilidade de outra pessoa no mesmo voo ter uma mala de viagem amarela).
Não digo que me conformei, apenas que mais uma vez as futilidades do mundo externo acabaram suprimindo minha abstração.
Retirei por fim a tal mala amarela da esteira e rumei para o saguão. Um rapaz qualquer segurava preguiçosamente uma plaquinha precária, improvisada de um pedaço de papelão em que meu nome fora escrito com caligrafia primária, um “T” a menos, um “C” a mais e alguns respingos de gordura que eu não cheguei a ver, mas pude perfeitamente imaginar.
Bem, não havia muito que pudesse ser feito. Cheguei-me a ele, impaciente por ser levado de uma vez ao hotel, torcendo para que fosse daqueles condutores silenciosos e rápidos. Nenhum-nem outro; desatou a falar comigo.
Primeiramente, disse que não sabia quem eu era. Óbvio que não; não sou o tipo de pesquisador que recorre à mídia de massas. Tenho alguma dignidade – arrogância academicista, como queira. Então…
”Comecei a pesquisar. Não é todo dia que… Na verdade é mais comum do que você deve imaginar, mas enfim. Tinha que saber alguma coisa sobre quem eu estava levando. E devo dizer que foi um ótimo negócio. Um pesquisador tão importante quanto você… O que paguei por sua alma foi uma niñeria!”
Talvez porque nesse momento um carro nos fechou no cruzamento e começaram a soar buzinas de todos os lados, acabei alucinando as últimas sentenças dele. Fiquei meio assim de pedir que repetisse, pareceu um pouco deseducado de minha parte. Mi culpa; não prestava mesmo muita atenção que o assunto dele não me era interessante.
Só para não dizer que pouco me importava, assim que deixamos o furdûncio do cruzamento tomei os cuidados de perguntar seu nome.

