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Há sempre um chinelo velho…

29 de março de 2009

“É que assim… ” ele começou a falar, sem muita convicção.

Ela deu um longo suspiro e baixou seu garfo. Era demais esperar que ele tivesse senso suficiente para esperar que ela terminasse seu prato antes de tocar em um assunto tão desagradável? Sim, era. Ele nunca tivera o mínimo tato, ela nunca se iludira a respeito e agora, chegado o fim do relacionamento dos dois não poderia ser pior hora para tanto.

“É, eu sei…”

Resolveu se precipitar, acabar com aquela bobagem o mais rápido possível. Já não aguentava mais a forma como ele a tratava havia dois meses, como se fossem não mais que amigos, sequer bons amigos, nem um pouco coloridos.

“Pois é… Estranho isso…”

“Realmente…” louco isso como alguém completamente indiferente para você de uma hora para outra torna-se objeto da sua mais profunda afeição e, de repente, puff! o príncipe sofre um infarte fulminante e você acorda ao lado de um sapo.

No caso dela não era inteiramente verdade. Ele ainda era um príncipe para ela. Mas não podia continuar ao lado de um cara que não a via como mais que uma abóbora. Não, ela era Cinderela e haviam milhões de sapatinhos de cristal por aí, para que se prender a um “chinelo velho”? Mesmo assim…

“…Sabe…”

Balançou a cabeça; na-na-ni-na-não. Ela não sabia, nem queria saber. Bem, queria sim. Mas só um pouquinho! Não desesperadamente, como ele devia estar pensando. Claro que não!

“…Gosto muito de você, quero continuar sendo seu amigo, seu melhor amigo” os dois falaram em uníssono, ele sério, a meia voz, ela debochada, apenas em sua cabeça.

Que mania essa que os namorados têm de se sentir culpados em terminar. Como se dizer “vamos ser amigos” mudasse totalmente o fato do outro estar levando um belo pé na bunda, como se o mundo fosse se iluminar de cor-de-rosa e os dois fossem sair por aí de mãos dadas pulando alegremente e entoando “acabei de dar/levar um pé na bunda e ela é/eu sou otária para achar que seremos amiguinhos para sempre”

Já tinha muitos amigos: os gays, os feios, as fofoqueiras, os melhores amigos, os amigos coloridos… Ela que não seria outra apaixonada debilóide. Por mais que seu amor-próprio tivesse sido atirado no lixo muito tempo atrás, ainda conservava alguma arrogância – uma qualidade péssima, de acordo com os valores morais estabelecidos pela sociedade em que ela crescera, mas melhor que nada.

“Não, muito obrigada.”

Primeiro ele ficou desorientado com a resposta e, logo depois, indignado com a recusa. Quando retomou o controle sobre si, proferiu uma dúzia de palavrões e reclamações. Falou tudo o que estivera errado, a forma como a má educação dela o envergonhava na frente dos amigos, como ela se vestia mal, como fazia bagunça, como roncava como um homem e…

Ela balançou a cabeça novamente, se despediu quando ele não achou mais palavras e foi embora. Sem dissimulações, sem eufemismos, sem fazer do passado um tempo mítico e perfeito. Melhor assim. Melhor para os dois.


Teoria Capilar

18 de março de 2009

É estranho como certas amizades parecem exóticas, porque essas pessoas não têm muitas coisas em comum, mas vai ver é isso que as tornam tão amigas. Mas, esses dias durante uma leve distração do dever de casa comecei a pensar em como os cabelos de pessoas da mesma “panelinha” tem características parecidas, por exemplo, toda escola tem os alunos mais populares, reparem como as meninas desse grupo ou estão com os cabelos muito esticados á chapinha e loiros oxigenados, ou tem a cor natural e estão sempre presos; os meninos ou raspam o cabelo deixando só aquela pelugem ou estão com eles baixos e desgrenhados.

Cabelos cortados no estilo capacete quadradão, desgrenhados e ás vezes sujos, esses normalmente são os excluídos da sua sala. Agora pense em um grupo em que pessoas não tão próximas, mas que se tornaram colegas por convivência, esse tipo de amizade tem o cabelo normalmente bonito, mas que com a falta de cuidado se tornaram ”feios” e bastante frisados. Tem aquelas amigas, que não sentam muito próximas na sala, por motivo de atenção a aula, mas que no dia-a-dia são carne e unha, repare nelas, elas tem o cabelo da mesma cor e mais ou menos o mesmo estilo: longos e lisos com leves ondinhas ao longo do cabelão e se tem um menino no grupo, ele tem a mesma cor de cabelo.

E toda sala tem aquelas pessoas que não tem uma panelinha fixa, andam com todo mundo, e os cabelos também são assim, diferentes, um cacheado outro liso e com luzes, o outro preto mas com luzes californianas, não existem muitos assim, aí passa para aquele grupinho de pessoas super legais e fofas, mas que o cabelo é meio podrinho (não no sentido ruim, mais sim no sentido de que está sempre preso ou com algum acessório que “esconda” o cabelo). Reparem, toda sala tem aquele grupinho que não é excluído, mas também não é muito amigo do resto da sala, esse tipo de grupinho tem o cabelo bonito, mas um tanto indomável, mas nada que um bom shampoo e reparador de pontas não resolva, esse é o grupinho dos aplicados. Agora, meu grupinho “favorito”, aquele em que as pessoas tem cabelos feios e por mais que todo mundo as ache bregas, elas continuam se sentido lindíssimas. Esse tipo de grupinho tem o cabelo feio que por mais que tente não consegue melhorar, é daquele tipo que você pede o nome do salão de cabeleireiro, só para passar longe dele.

Por mais, que digam a escola é divertida, onde você vai ver tipos tão engraçados? Estou me sentindo em algum livro do Aluísio de Azevedo, com tantos clichês, porque toda escola tem o mesmo tipo de pessoas, só muda o rosto, que para isso ainda não arrumei uma Teoria Facial.


Novas Idéias Ideias

16 de março de 2009

“Quot linguas quis callet, tot homines valet” disse uma vez Carlos I, da Espanha. Porém, um poliglota sem domínio de qualquer uma de suas várias línguas não pode valer-se plenamente de seu conhecimento.

Após adquiridas as noções essenciais à comunicação em um idioma, começa o processo de aperfeiçoamento da linguagem. É natural que a fala se desenvolva mais rapidamente, já que é a forma mais corriqueira de comunicação na sociedade. Em seguida vem a escrita, como forma de registro das idéias formuladas através da fala, e a leitura, que ajudará a aprimorar as duas anteriores.

Com a evolução dos meios de comunicação, a linguagem tende a sofrer modificações de modo a aproximar os falantes de um idioma ao redor do mundo. Tais mudanças afligem sobretudo aqueles que se aproximam do vestibular e tem pouco tempo para se adaptar às novas normas.

Esse receio quanto à nova regra é em suma infundado. Mauro Salles Villar, co-autor do Dicionário Houaiss, afirma que o acordo ortográfico simplifica a língua e torna mais fácil a aprendizagem. Quanto ao vestibular, os estudantes não precisam se preocupar por enquanto, pois o uso das novas normas passa a ser obrigatório apenas em 2013.

Os jornais e revistas já começaram a aderir ao Acordo e é natural que as pessoas estranhem a princípio, como aconteceu com os acordos anteriores. Mas não há dúvida de que, ao longo desses quatro anos de adaptação, os que tem costume de ler conseguirão aplicar as novas regras corretamente.


Cuba Libre

15 de março de 2009

Coisas estranhas da vida… Estava fazendo uma pesquisa para o livro que estou escrevendo atualmente e a busca no Google, ao invés de encontrar o resultado que eu queria, me levou a um antigo texto meu, da época em que eu ainda escrevia para o 1001 Gatos. Resolvi “repostá-lo” aqui no blog e, antes que perguntem, não, o livro não tem nada a ver com Cuba ou socialismo ou…

Cuba é uma fonte de perguntas constantes na minha cabeça. Questões que já me fizeram perder o sono.

O próprio drink contém fortíssimo teor político (além do alcoólico!): É uma mistura simples de Rum – destilado originário da ilha caribenha – e Coca-Cola, o maior símbolo do [sic] imperialismo americano [sic]. Enxergo como um protesto aos boicotes e barreiras comerciais bilaterais. Passei uns bons minutos fazendo essa reflexão, agitando com movimentos circulares o meu copinho de plástico. Infelizmente, aquilo tava mais pra uma “URSS Livre”, já que era feito com Vodka.

Sempre que eu penso em Cuba, me vem a mente um país fracassado. Não em termos de saúde ou educação. Nem do governo em si. Mas sim de toda a “falta de sistema” a que eles estão presos. Socialismo não é, nem nunca será, um sistema! É uma etapa, e todos deveriam saber disso.

Quando Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista, criaram um dos sistemas mais brilhantes de todos. E como é praxe, a execução de uma boa idéia é sempre tortuosa.

É simples voltar no tempo. Tudo de que você precisa é superar a velocidade da luz. O detalhe é que, segundo Einstein, ela é a velocidade limite, e para alcançá-la, você acabaria do tamanho do universo – ou algo parecido.

Rumo à Anarquia Vermelha, resolveram que seria bom centralizar o poder, queimar qualquer forma de controle espiritual das massas e enfiar livros guela abaixo dos pirralhos, para que crescessem e pudessem viver sem que ninguém mandasse neles. Mas assim que um indivíduo se vê possuidor de todo o poder ele não quer mais largar e qualquer um que puder obtê-lo, o fará. Para todo o sempre, amém, e o povo que continue a mal possuir suas roupas.

E eu, sentada na cama do hotel, na frente do laptop da minha mãe, comendo Habanitos integrales do El Maestro Cubano começo a pensar se realmente somos nós os livres.

O povo em Cuba ao menos sabe sob o que está vivendo. Eles ainda estão no degrau, podem avançar se o almejarem tanto quanto o fizeram na revolução. Nós, por outro lado, nos vangloriamos do sistema conta o qual “lutamos”. A cada nova manhã temos que pagar as indefinidas prestações do crediário de nossa liberdade e sempre depender de algum babaca que é subalterno de outro babaca, na ininterrupta hierarquia do capital. Somos baratas tontas pagando e pagando para poder dar mais uma volta.

Portanto, bom cidadão, não se preocupe. Tão diferente dos cubanos, você é “livre”!


Gagnant

15 de março de 2009

Sentado no colchão que ficava no chão da “sala” da kitnet e servia tanto como cama quanto como sofá, ele abriu o último maço de cigarros e acendeu um com o esqueiro.

Abriu seu notebook e abriu o editor de texto. Como detestava a brancura da tela, a ausência de palavras e a o cursor que piscava impacientemente, ansiando por uma palavra, depois a próxima e mais e mais palavras que nunca vinham à mente dele nos momentos de maior necessidade.

Precisava de uma estória, qualquer coisa que pudesse vender. Precisava de dinheiro e precisava urgentemente. Acabara com os últimos trinta reais que tinha no banco na noite anterior comprando cigarros, duas garrafas de coca-cola e um saco de pão. Com o nervosismo de não ter mais dinheiro acabara com um cigarro atrás do outro e, quando menos esperava, deparou-se com o último maço.

Sempre tinha a possibilidade de pedir emprestado aos pais ou ao irmão mais novo, mas seus trinta e vários anos de irresponsabilidade e falta de planejamento financeiros eram orgulhosos demais para ceder tão rapidamente.

A pilha de contas atrasadas sobre a mesa aumentava a cada dia e seu salário baixo não vinha. Contava aflito os dias para o corte da luz e do telefone e não conseguia ver uma alternativa para a sua miséria.

Mas seu cigarro, tragado com tanta agonia, dispersava-se em fumaça calma e delicada, servindo à sua existência destrutiva, indiferente tanto aos males quanto aos prazeres alheios, sempre o vencedor entre tantos perdedores.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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