“É que assim… ” ele começou a falar, sem muita convicção.
Ela deu um longo suspiro e baixou seu garfo. Era demais esperar que ele tivesse senso suficiente para esperar que ela terminasse seu prato antes de tocar em um assunto tão desagradável? Sim, era. Ele nunca tivera o mínimo tato, ela nunca se iludira a respeito e agora, chegado o fim do relacionamento dos dois não poderia ser pior hora para tanto.
“É, eu sei…”
Resolveu se precipitar, acabar com aquela bobagem o mais rápido possível. Já não aguentava mais a forma como ele a tratava havia dois meses, como se fossem não mais que amigos, sequer bons amigos, nem um pouco coloridos.
“Pois é… Estranho isso…”
“Realmente…” louco isso como alguém completamente indiferente para você de uma hora para outra torna-se objeto da sua mais profunda afeição e, de repente, puff! o príncipe sofre um infarte fulminante e você acorda ao lado de um sapo.
No caso dela não era inteiramente verdade. Ele ainda era um príncipe para ela. Mas não podia continuar ao lado de um cara que não a via como mais que uma abóbora. Não, ela era Cinderela e haviam milhões de sapatinhos de cristal por aí, para que se prender a um “chinelo velho”? Mesmo assim…
“…Sabe…”
Balançou a cabeça; na-na-ni-na-não. Ela não sabia, nem queria saber. Bem, queria sim. Mas só um pouquinho! Não desesperadamente, como ele devia estar pensando. Claro que não!
“…Gosto muito de você, quero continuar sendo seu amigo, seu melhor amigo” os dois falaram em uníssono, ele sério, a meia voz, ela debochada, apenas em sua cabeça.
Que mania essa que os namorados têm de se sentir culpados em terminar. Como se dizer “vamos ser amigos” mudasse totalmente o fato do outro estar levando um belo pé na bunda, como se o mundo fosse se iluminar de cor-de-rosa e os dois fossem sair por aí de mãos dadas pulando alegremente e entoando “acabei de dar/levar um pé na bunda e ela é/eu sou otária para achar que seremos amiguinhos para sempre”
Já tinha muitos amigos: os gays, os feios, as fofoqueiras, os melhores amigos, os amigos coloridos… Ela que não seria outra apaixonada debilóide. Por mais que seu amor-próprio tivesse sido atirado no lixo muito tempo atrás, ainda conservava alguma arrogância – uma qualidade péssima, de acordo com os valores morais estabelecidos pela sociedade em que ela crescera, mas melhor que nada.
“Não, muito obrigada.”
Primeiro ele ficou desorientado com a resposta e, logo depois, indignado com a recusa. Quando retomou o controle sobre si, proferiu uma dúzia de palavrões e reclamações. Falou tudo o que estivera errado, a forma como a má educação dela o envergonhava na frente dos amigos, como ela se vestia mal, como fazia bagunça, como roncava como um homem e…
Ela balançou a cabeça novamente, se despediu quando ele não achou mais palavras e foi embora. Sem dissimulações, sem eufemismos, sem fazer do passado um tempo mítico e perfeito. Melhor assim. Melhor para os dois.

