Era a primeira vez que ia ao clube sozinha, desde que tornara-se sócia, junto com o namorado de longa data. Aliás, EX namorado. Há umas quinze horas, pelos seus cálculos.
Enfim, fazia calor e não tinha lugar melhor para ir. Arrumou suas coisas e foi deitar-se numa espreguiçadeira à beira da piscina para ler Jane Austen enquanto se bronzeava com seu menor biquini.
A piscina estava quase vazia. Muita gente fugia da cidade nessa época de férias, inclusive ela. Mas o rompimento repentino destruíra todos os seus planos.
Levantou para comprar uma garrafa de água. Quando voltou, a mesa ao lado da sua estava atulhada de toalhas coloridas e bóias de criança. A família estava na água, próxima dela. Próxima da mesa deles, para dizer a verdade. Ela estar ali era mera coincidência.
Deixou o livro por um instante para observá-los. Eram duas crianças muito bonitinhas e risonhas, acompanhadas de um homem. Não prestou atenção nele a princípio, mas logo começou a divagar sobre quem ele seria. As crianças até lhe eram familiares, ele não. Será que as vira anteriormente só com a mãe? (Sim, supunha que ele fosse o pai. Se bem que parecia bastante novo… Poderia ser irmão mais velho, quem sabe? Era muita diferença de idade, mas poderia ser fruto do primeiro casamento do pai ou da mãe dos pequenos.) Ou talvez fossem todos novos, apenas via algo conhecido nas crianças porque naquela idade elas eram quase todas iguais.
Voltou a olhar para eles, o homem não estava mais na piscina. Pouco depois ele passou na sua frente, como que pedindo que reparasse nele. Tinha uma barriguinha, formada por negligência com a academia, mas de resto estava bem. Demais! Era ”loiro dos olhos azuis”, sonho de consumo (ou concepção?) seu e de meio mundo. Colocou os óculos escuros para poder observar mais discretamente e, principalmente, enfusivamente.
Seus olhares ocasionalmente se cruzavam. Era apenas impressão, mera coincidência, ou ele realmente não conseguia tirar os olhos dela, assim como Mr. Darcy de Elizabeth?
O excesso de leitura, aliado ao sol forte já a estava fazendo ter devaneios. Passou na ducha e entrou na água, secretamente intentando que ele se aproximasse. Ele não o fez, ainda que seus olhos azuis o fizessem. Mas ela não. Desviava o olhar, queria se fazer de difícil. Ou talvez só fosse tímida para olhar de volta.
Sorria bastante, até para as crianças que pulavam ao seu lado espirrando água na sua cara. Sorria porque as pessoas contentes, segundo algum estudo que leu na NOVA, se tornavam mais atraentes. E também porque era boba, mas não cogitava essa hipótese.
Eis que chega um casal, pouco mais velhos que ela, bem mais acabados que ela (será por causa dos desgastes do casamento?) e começam a conversar com o homem. Entreouvindo a conversa deles, desculpando-se com sua moral que não espionava, eles que falavam alto demais, descobriu que eram os verdadeiros pais das crianças e o homem, vejam bem, um menino, isso sim; sobrinho deles.
Que tipo de sobrinho acompanha os tios e os primos em um programa de índio desses? Ora, um influenciado por estímulos financeiros, certamente, dizia consigo. Um que não passe dos dezesseis, no máximo dezessete anos.
Qual, que maçada! Ao menos receber olhares pueris a fizeram sentir mais jovem, o oposto do sentimento para com o livro do século… sei lá, dezoito? dezenove? Old fashioned.
Posto que começou a chover, a princípio uma garoa fina, mas logo relâmpagos iluminavam o céu cinzento, a piscina foi abandonada e as pessoas puseram-se a caminho dos vestiários e depois, de casa. Debaixo de chuva forte, com um vestido branco, já molhado e transparente, ela teve a última visão de seu admirador-nada-secreto. Esse último olhar, que ele não fez a menor questão de disfarçar como fizera – minimamente – com os anteriores, ela também não conseguiu sustentar. Virou a cara inconscientemente e, quando deu por si e o percebeu já longe e de costas, se arrependeu. Afinal, encarar um pouquinho nunca arrancou pedaço de ninguém, não é mesmo?
Ao som de ”One Week of Danger” e ”Rich Girls”, da banda novaiorquina The Virgins.