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Ora, Homem!

15 de julho de 2010

Meu enteado, menino custoso! Cada dia me aparece com umas que nem sei de onde… Deu esses dias pra achar que era gente.

Estávamos a mãe e eu sentados na cozinha, esperando o que agora não me lembro terminar de assar – sei que o cheiro certamente era bom. Aí chega o guri, faz qualquer coisa de charme pra mulher, chama a atenção. Raio de moleque mimado. Isso eu sempre critiquei, ainda que pra mim mesmo. Não, não me atrevo travar briga dessa com a mulher…

Tá… como quem não quer nada, se achega da mãe, faz um agradinho, aguenta as mãos frias que acabaram de lavar a louça engastaiarem no cabelo que nunca vê um pente… “Precisa cuidar desse cabelo, meu filho. Passar condicionador, pentear de vez em quando…”

- É, é… – balançando os ombros – mas, mãe… eu sou homem.

Ora, homem! Nem pra rapaz pequeno!

A mulher me olha preocupada, pergunta se está tudo bem e eu desfaço minha cara de desaprovação – pra ela, de certo, o período não era nada demais. Pego os talheres na gaveta, ela a comida no forno e vamos todos ser uma família feliz na mesa da sala de jantar.


SC #6

14 de julho de 2010

Indivíduo do sexo feminino; covinhas discretas no queixo e nas bochechas; um e sessenta e tantos (descontar o salto das botas); ausência de pigmentação na pele, exceto sob os olhos; cabelos chanel castanhos. Flagrada portando 1kg e 640 gramas de balas de goma – alegou serem para consumo próprio.

Imagens do dia: Crentes promovendo seu CD (15 contos – louvores inclusos) com performance musical em pleno calçadão; anúncios de oferta dos lojõespop em tempo real; um palhaço caminhando ao lado de engravatados; containers amarelo-queimado em contraste com o céu azul no horizonte. Viro na R. F…, depois à esquerda na rua da revistaria. R$ 1,50 depois…

JUDIARIA

Menina de dois
anos é internada com
suspeita da porca em
Balneário pág 9

…a vida provinciana.


Cinco Toneladas de Linho (parte II)

12 de julho de 2010

Almoçamos, G. e eu, à beira da praia. Difícil conceber coisa mais anti-asséptica que comer de frente ao mar, não distinguir farinha do que é areia… Penso que seja uma preocupação demasiadamente banal e medíocre de minha parte e que não se aplique a mentes elevadas, ou mesmo àquelas bastante rebaixadas. Gosto de pensar em G. como exemplo do primeiro grupo, embora o outro caso seja mais plausível – não por ser mulher, simplesmente por se tratar de um humano adulto.

Então terminamos o pavoroso almoço. Sei que G. me lançava um olhar irritado por detrás dos óculos pretos, ao tempo que sorria como uma primeira-dama, do jeito que a mãe ensinou. Era o que gostava nela. O resto não era muito difícil de encontrar por aí.

Confesso: tão logo pisei a calçada em frente à livrariazinha de semi-novos e usados, abri o livro de minha … (de mortuis nil nisi bonum dicendum est; melhor não revelar sequer sua inicial). Avancei sobre as páginas com atenção e calma, qual fosse uma virgem. Capa; a tradicional folha branca com a medonha dedicatória da netinha para vovó C., redigida pelos pais da menina; o verso, com dados editoriais (19… um ano após nos separarmos…); a dedicatória…

Parei por um instante, no meio dos carros engarrafados. As buzinas ao meu redor idênticas àquelas de quando parti. Lembro de tê-las associado a palmas. Palmas, oras… Certamente poucos minutos após esse pensamento, já tinha me desiludido a esse respeito.

(Para X, sem nenhuma razão especial – deu saudades.)

E é por isso, caros, que não se deve mexer com os mortos.


Cinco Toneladas de Linho (parte I)

06 de julho de 2010

Era verão. Estava entediado, odeio Sol. G. insistira em passar a semana na praia, o que fazer? Ou o que não fazer por pernas longas e macias que carregavam todo um corpo macio?

Deixei-a na praia, fui andar pela cidade lotada de turistas por toda a parte, à exceção de um pequeno sebo mal-iluminado, com a caixa mais medonha que já vira em vida.

Entrei depressa, dispensei a ajuda daquele ser disforme e fui encontrar o que me ajudasse a sobreviver os cinco dias restantes no litoral.

Esbarrei num nome conhecido no alto da estante. Velha conhecida, por vezes boa amiga… Nunca me atrevi a ler nada dela. Puramente orgulho, pois já tínhamos nos afastado quando começou a escrever.

Morrera, fazia pouco tempo, num acidente de avião. Fui convidado para o enterro por seus pais, gostavam muito de mim… nunca retornei a ligação. Não penso que, depois de tudo o que lhe disse, ficaria contente com minha presença em seu velório.

Puxei com cuidado o livro da estante, para não terminar de descolar o tombo. Abri a capa – o preço era irrisório. Levei, junto com um Dostoiévski, por desencargo de consciência e sem planos reais de ler.

PS: Tenho a mania de começar contos em partes e nunca acabar… É um risco que vocês terão que correr.


SC #5

05 de julho de 2010

O despertador do celular tocou lá pelas oito & oito – ignorei. Não havia mais ninguém em casa. Enrolei mais um tanto na cama até tomar coragem de levantar.

Estava inspirada. Ando assistindo Fellini demais, só pode. Vontade de sair de saia de alfaiataria e salto alto.. lindo, nessas calçadas irregulares e esburacadas… Fui lá, pela cidade, desfilar meus mais cinco centímetros provisórios, Nabokov a tiracolo…

Parei na mesa da sala; papel e cérebro em mãos… Chega o menino pra me fazer companhia. Ele precisa ler alguma coisa pro colégio, pede sugestão – difícil… só “biscoito fino” na minha mala. Ele resolve se aventurar por Proust. Pense: nem pelos tem na cara, vai ler Proust! Talvez por ser o menor volume da pilha que trouxe na mala.

Desiste nas primeiras páginas. Lia alto pra mim, se atrapalhava com pontuações e nomes e abreviações franceses. Pego o Zaratustra, que é mais divertido. Termina o primeiro parágrafo, cansa… Melhor não forçar a barra, traumatiza o menino! Meu irmão é mesmo uma graça.

Copyright © 2009 por Carolina Peters
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