Juro pra vocês, trocar minha primeira lâmpada sozinha foi bastante emocionante. Deu uma sensação de auto-suficiência, uma coisa tão boa… De repente era Louise Michel comandando minha própria revolução, dentro de meu quarto instaurava-se uma Comuna. Aí eu desci cuidadosamente da cadeira do computador e voltei à realidade.
Uma coisa que não suporto em datas como Dia Internacional da Mulher, Dia da Consciência Negra, Dia das Mães, dia do diabo a quatro… são as milhões de mensagens toscas que invadem as caixas de email, com que nos bombardeiam nas sinaleiras e quadros de aviso do condomínio. Fico com as flores; os pensamentos ilustrados em power point e os poemas amadores, dispenso. Todos. Não leio um sequer. É ver .gif ou letrinhas coloridas que fujo num instante.
Tenho verdadeiro PAVOR de cliché! Ok, mentira. Tenho não. Eu gosto do cliché, gosto mesmo. Mas não assim na forma bruta e vulgar. Ele precisa ser trabalhado, limado – trabalho deveras parnasiano, no entanto, o resultado aconselhado é qualquer coisa menos isso!
Voltando ao que eu queria dizer quando comecei esse texto, foda-se que a mulher tem mais inteligência emocional ou sei-lá-que-raios! Foda-se o lirismo descomedido dos cartões comerciais. Foda-se também a repulsa à data. É só mais um dia, nem feriado é! Se quer um homem homenagear suas mulheres (não no sentido poligâmico, refiro-me a mãe, vós, amigas, tias, sobrinhas, namorada…), comprar rosas, dizer parabéns, ora! Deixe o menino. É uma gentileza, não um atestado de virilidade. Aqueles que precisam tão desesperadamente demonstrar sua pretensa superioridade sexual não gastam seu dinheiro com outra coisa que não academias, sons automotivos e todo a sorte de parafernalhas para exibir-se. Seu narcisismo não permitiria.
Nesse contexto, após livrar a alma daqueles que não fazem por mal perpetuar a existência desse dia tão inútil, retomo o nome citado no primeiro parágrafo: Admiro profundamente a mulher que foi Clémence, ela é um dos meus “exemplos a ser seguido”. No entanto, nossas lutas não são as mesmas.
Não vejo hoje cabimento no feminismo. A briguinha maniqueísta entre os sexismos não passa disso: uma disputa por adeptos, em detrimento da luta por direitos civis necessários e urgentes.
Este e qualquer outro Dia X, assim como os 364 restantes no calendário não-bissextos, ao invés de servir de palco para discursos antigos ou listas quilométricas enumerando vantagens femininas (“prioridade em botes salva-vidas; orgasmos múltiplos; a mulher do presidente é primeira dama, enquanto o marido da presidente é inominado…” tenha dó!), deveria sediar debates sobre a circuncisão bárbara de meninas (praticada e perpetuada pelas próprias mulheres!) em certas culturas, majoritariamente na África e Ásia; sobre a legalização do aborto no Brasil… E não porque são mulheres; porque são o “sexo frágil”, devem ser protegidas. Porque são seres humanos!
O mesmo deve ser feito em relação à união civil de pessoas do mesmo sexo, à adoção de crianças por esses casais; rediscutir o sistema de cotas, reavaliar e investir na educação básica (onde, como, quanto? Já!), ampliar o acesso à universidade…
Nada me impede de ganhar flores qualquer outro dia. Por que impediria de pensar em políticas públicas também? Hã?
Pra terminar de forma mais agradável, deixo uma lembrancinha aos homens; uma tradução livre em prosa da primeira estrofe de Cows in Art Class, poema de Charles Bukowski, dos meus favoritos:
Bom tempo é como uma boa mulher: nem sempre acontece. E quando acontece, nem sempre dura. Homens são mais estáveis: se ele for mal, há uma boa chance de que o continue sendo; se for bom, talvez permaneça assim. Mas as mulheres são mudadas pela idade, pelas dietas, diálogo, sexo, crianças, pela Lua, pela ausência ou presença do Sol ou bons momentos. Uma mulher deve ser curada, para sua sobrevivência, com amor, ao passo que um homem torna-se mais forte quando odiado.
